Após o desaparecimento do filho nunca mais foi a mesma. Ficou distante. Havia perdido recentemente seu marido. Companheiro de 40 anos de vida. Já era uma senhora. Caminhava para os 70 anos. A solidão e a saudade pesaram nos ombros já cansados de uma vida de tantos sacrifícios. Não precisava mais passar por aquilo não. Já estava no fim de sua jornada. Queria apenas esquecer de tudo. Era o que sempre repetia. Alguns dizem que de uma forma ou outra, acabou conseguindo. Benção ou castigo? Ninguém sabe.
Era um sábado, manhã de janeiro. Primeira semana do ano. Acordava cedo. Mania de idoso. Ligava o rádio, preparava o café, aguava suas plantas e voltava para a mesa. Às 06:30 seu filho acordava. Trabalhava num comércio no centro, próximo ao Mercado Municipal. Era seu único companheiro após a morte do seu marido. Momento difícil pra ela. Mas tinha o seu filho, que lhe ajudou a passar esse momento. Era um bom homem, 30 anos, trabalhador. Nuca lhe deu trabalho, pelo contrário. Era esforçado, sempre tentou ser alguém. Ajudava na casa e nas despesas. Assumiu o papel de provedor depois da morte do pai. Atento as demandas, cuidava dela e do que fosse necessário pra dar-lhe o mínimo de conforto. Era o mínimo, falava sempre a ela.
Só era meio calado. Ah, isso ele era. Estava sempre pensativo e calado pela casa lendo coisas que trazia da rua ou com os fones de ouvido. Gostava de música. As vezes até escrevia canções. Pela manhã ouviam juntos as músicas que tocavam no rádio durante o café. Gosto dessa música, ele comentava vez ou outra. Sorriam. Falavam sobre coisas do dia a dia e sobre os compromissos da semana. Ele andava bebendo muito a uns meses, fato que a preocupava. Mas de um tempo pra cá não estava mais muito a fim, foi o que disse a ela. Estava limpo. E ela feliz com sua decisão.
Ela percebia que ele estava triste a algumas semanas. Mas sempre quando o perguntava sobre o que lhe preocupava ele respondia que estava tudo bem, era apenas o cansaço do dia a dia. Ela o respeitava e fingia acreditar, mas no fundo sabia que algo não estava certo. Mães sempre sabem.
Nesse dia, se despediu e saiu rumo ao centro da cidade pra ganhar a vida. Sábado saía do trabalho mais cedo. Largava o serviço as 13h. Almoço em casa hoje, ele disse. Se despediu dando um beijo na testa da mãe. Vai com Deus meu filho. Até depois. Até, respondeu sorrindo. Naquela tarde uma chuva violenta castigou a cidade. Fortes ventos e muita água desabou sobre todos. Caos no trânsito, viu pela Tv. Bem na hora que meu filho sai do trabalho, poxa. Lamentou. As horas passaram e a chuva também. Aguardou ansiosa a chegada do filho após o tempo se abrir novamente. Deve ter ido fazer alguma coisa, pensou.
As horas seguiram e nada, resolveu mandar uma mensagem, não foi respondida. Foi ficando preocupada. A noite chegou e nenhuma notícia. Já estava desesperada. Chamou as irmãs que moravam na mesma rua, em casas vizinhas. Todos tensos tentando contato. Sem sucesso. Desespero total. Os primos tentaram acalmar as tias que a essa altura já estavam em estado extremo de angústia. Informaram a polícia. Registro feito. Procuram nos hospitais da cidade e em todos os possíveis locais que frequentava. Nada. Não havia mais ninguém a quem recorrer. Ninguém para ligar. Ele não tinha muitos amigos. Andava sempre sozinho. 24h depois foi declarado oficialmente desaparecido pela polícia.
Os dias passaram e nenhuma resposta ou notícia. Ninguém o havia visto ou falado com ele. A última pessoa que o viu foi o chefe quando saiu da loja. Depois de uma semana sem dormir, a esperança do filho reaparecer foi se dissolvendo dentro do coração materno. E junto com ela, a sua vida. Havia perdido o marido e agora o filho. Não tinha mais ninguém. As irmãs a faziam companhia, até a levaram para morar junto delas para que não ficasse sozinha nesse momento. Não adiantaram os esforços. Com o passar dos dias ela foi definhando diante dos olhos de todos.
Cada dia falava menos. Interagia menos. Não importavam as tentativas. Não havia retorno. Decidiram que não se tocaria mais no assunto na casa. Todos de acordo. Aos poucos foi emagrecendo. Não comia direito. Dizia não sentir fome. Passava a maior parte do dia calada sentada numa cadeira de balanço que havia na varanda olhando para o fim da rua. Estava a esperar a chegada do filho. Falava isso como quem pensa alto. Quando chovia ela saia pela rua andando a sua procura. Ele está vindo. Estou indo encontrá-lo, dizia para as irmãs que a traziam de volta para casa encharcada. Todos da rua já ficavam atentos aos episódios, que acabaram por se tornar corriqueiros. Sentiam pena. Era uma pessoa querida na rua. Sentiam-se mal em vê-la assim.
Com o passar do tempo começou a esquecer os nomes e a dizer coisas sem sentido. Àquela altura já havia perdido a consciência. Não sabia mais seu próprio nome ou de suas irmãs. Tinha pequenos surtos e começava a repetir por diversas vezes a frase “daqui a pouco ele vai chegar, daqui a pouco ele vai chegar” olhando e apontando pro relógio da parede. Numa dessas andanças pela chuva, fugida de suas irmãs e longe dos olhos dos vizinhos, acabou adquirido pneumonia. Seu corpo já debilitado não teve condições de reagir.
Em seu leito de morte perguntou a sua irmã pela última vez as horas e pediu para que ela avisasse ao seu filho, quando chegasse, que a sua janta estava sobre o fogão. Faleceu. Sem respostas e sem saber mais quem era. Em seu enterro uma leve chuva caiu sobre os que homenageavam a sua partida. “É ele vindo se despedir”, disse uma das irmãs olhando para o céu enquanto o coveiro jogava sobre o caixão uma pesada pá de barro molhado.
*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita
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