Wagner tinha 15 anos, era aluno do oitavo ano da escola em que trabalho como professor. Numa tarde, aproveitou que seus pais foram ao supermercado e deu um tiro na cabeça com a arma do próprio pai, policial militar. Era um domingo. 10 de março de 2024. Domingo é foda...
No dia seguinte, 11 de março, na escola, chegou a informação que um de nossos alunos faleceu no dia anterior. É sempre pesado receber essas notícias na escola. Fica escancarada a crueza da situação. Já tive algumas experiencias desse tipo. O clima pesa e não há muito o que dizer. Inicialmente não se sabia a causa de sua morte. Ficaram só os questionamentos e os lamentos da partida precoce do jovem rapaz. Logo depois surgiu a notícia, havia sido suicídio e a história foi contada em partes, com as informações disponíveis até o momento. O clima pesou ainda mais. Não tem como ser diferente. 15 anos, era uma criança, praticamente.
Aguardamos o posicionamento da escola em total desanimo pelo choque recebido. Esperávamos a suspensão das aulas naquele dia, em solidariedade e luto ao rapaz. Assim como ocorreu em outros momentos em que passamos pela mesma situação. Mas nada aconteceu. O clima foi ficando esquisito. Os professores se olhavam como se soubessem o que estava acontecendo, mas sem falar nada. Continuamos aguardando.
Após um tempo, e sem muitos esforços, deduzimos que a coordenação da secretaria de educação junto aos seus subordinados imediatos, vulgos capachos, não autorizaram a suspensão do dia letivo para não dar visibilidade ao caso. Covardes filhos da puta! A vida não vale nada mesmo pra esses caras. É impossível sensibilizar a máquina, pensei sozinho enquanto tomava um café e olhava o movimento lento dos colegas pela sala, todos meio desorientados sem saber como agir, inclusive eu.
Uma nota vagabunda de pesar é postada nas redes sociais da escola, que logo recebe comentários revelando o ocorrido. A nota é apagada e repostada para que os comentários não apareçam. Que cinismo do caralho! Meu estômago embrulha imediatamente. Os professores da turma em que Wagner estudava se recusam a ir pra sala nesse dia. Um pequeno gesto de respeito diante do descaso da instituição. E assim fizeram. Professor é foda, quando está pra briga ninguém segura.
Setembro amarelo é o caralho. Pensei comigo quando um dos professores informou que nem a própria turma em que Wagner estudava foi dispensada e estavam como zumbis pelos corredores chorando a perda do colega. Uma cena de cortar o coração. Observo atento uma colega argumentando que isso pode ter sido apenas um infeliz acidente. Acho bonita a inocência em certos momentos. Tem seu valor. Ela também protege em alguns casos.
Os evangélicos argumentam que pode ter sido falta de Deus na vida dele. A juventude de hoje está muito vulnerável, disseram. Foda. Sempre esse mesmo papo, que no fim das contas não diz poha nenhuma. Uma professora levanta o problema do acesso às armas de fogo. Os pró armas, que a pouco tempo defendiam o acesso, se calam. Não é nada legal quando a arma mata filho de policial. Não é pra matar esse tipo de gente que eles querem vê-las legalizadas.
Ouço calado, como sempre, a conclusão da argumentação de todos, e devolvo a eles um sorriso apático de desconforto e indignação, balançando a cabeça em sinal de concordância. Lembro que todos os dias, dentro de mim, um jovem também estoura a sua cabeça. As horas se passaram lentamente nesta tarde. O último sinal do dia tocou soando como a sirene do carro funerário que levou Wagner para o seu último destino. Caminho cabisbaixo em direção a saída. Fim do dia. Atravesso o portão e me sinto um pouco mais humano. Descanse em paz, Wagner. Que sua passagem seja leve.
*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita













