quinta-feira, 14 de novembro de 2024

CONTO DA SEMANA: A Morte de Wagner

 


Wagner tinha 15 anos, era aluno do oitavo ano da escola em que trabalho como professor. Numa tarde, aproveitou que seus pais foram ao supermercado e deu um tiro na cabeça com a arma do próprio pai, policial militar. Era um domingo. 10 de março de 2024. Domingo é foda...

No dia seguinte, 11 de março, na escola, chegou a informação que um de nossos alunos faleceu no dia anterior. É sempre pesado receber essas notícias na escola. Fica escancarada a crueza da situação. Já tive algumas experiencias desse tipo. O clima pesa e não há muito o que dizer. Inicialmente não se sabia a causa de sua morte. Ficaram só os questionamentos e os lamentos da partida precoce do jovem rapaz. Logo depois surgiu a notícia, havia sido suicídio e a história foi contada em partes, com as informações disponíveis até o momento. O clima pesou ainda mais. Não tem como ser diferente. 15 anos, era uma criança, praticamente.

Aguardamos o posicionamento da escola em total desanimo pelo choque recebido. Esperávamos a suspensão das aulas naquele dia, em solidariedade e luto ao rapaz. Assim como ocorreu em outros momentos em que passamos pela mesma situação. Mas nada aconteceu. O clima foi ficando esquisito. Os professores se olhavam como se soubessem o que estava acontecendo, mas sem falar nada. Continuamos aguardando.

Após um tempo, e sem muitos esforços, deduzimos que a coordenação da secretaria de educação junto aos seus subordinados imediatos, vulgos capachos, não autorizaram a suspensão do dia letivo para não dar visibilidade ao caso. Covardes filhos da puta! A vida não vale nada mesmo pra esses caras. É impossível sensibilizar a máquina, pensei sozinho enquanto tomava um café e olhava o movimento lento dos colegas pela sala, todos meio desorientados sem saber como agir, inclusive eu.

Uma nota vagabunda de pesar é postada nas redes sociais da escola, que logo recebe comentários revelando o ocorrido. A nota é apagada e repostada para que os comentários não apareçam. Que cinismo do caralho! Meu estômago embrulha imediatamente. Os professores da turma em que Wagner estudava se recusam a ir pra sala nesse dia. Um pequeno gesto de respeito diante do descaso da instituição. E assim fizeram. Professor é foda, quando está pra briga ninguém segura.

Setembro amarelo é o caralho. Pensei comigo quando um dos professores informou que nem a própria turma em que Wagner estudava foi dispensada e estavam como zumbis pelos corredores chorando a perda do colega. Uma cena de cortar o coração. Observo atento uma colega argumentando que isso pode ter sido apenas um infeliz acidente. Acho bonita a inocência em certos momentos. Tem seu valor. Ela também protege em alguns casos. 

Os evangélicos argumentam que pode ter sido falta de Deus na vida dele. A juventude de hoje está muito vulnerável, disseram. Foda. Sempre esse mesmo papo, que no fim das contas não diz poha nenhuma. Uma professora levanta o problema do acesso às armas de fogo. Os pró armas, que a pouco tempo defendiam o acesso, se calam. Não é nada legal quando a arma mata filho de policial. Não é pra matar esse tipo de gente que eles querem vê-las legalizadas. 

Ouço calado, como sempre, a conclusão da argumentação de todos, e devolvo a eles um sorriso apático de desconforto e indignação, balançando a cabeça em sinal de concordância. Lembro que todos os dias, dentro de mim, um jovem também estoura a sua cabeça. As horas se passaram lentamente nesta tarde. O último sinal do dia tocou soando como a sirene do carro funerário que levou Wagner para o seu último destino. Caminho cabisbaixo em direção a saída. Fim do dia. Atravesso o portão e me sinto um pouco mais humano. Descanse em paz, Wagner. Que sua passagem seja leve. 


*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita 




quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Olhos Imaculados fecha com Polybius e Califa 92 para o Abutre Rock Fest

 


Veterana banda agitadora do ecossistema musical independente amazonense, a Olhos Imaculados encabeça o Abutre Rock Fest e convida para o palco d'O Condado, as bandas Polybius e Califa 92, para mais uma amostra do que é produzido e executado no rock manauara.


"Esperamos que o público possa conhecer os nomes que estão na lista de apresentação. Que seja mais uma vitrine e de apoio ao rock autoral e pelos covers apresentados", disse Edilson Seta, vocalista da Olhos Imaculados.


Cartaz oficial do Abutre Rock Fest 

Sobre a nada fácil arte de se fazer rock no Amazonas, Ciro Jammil dá a letra. "Espero que o público compareça. Reunir a Olhos para fazer um evento um show é desafiador. O Seta vem de Manacapuru, o Rodrigo vem da comunidade depois de Tupé, todos chegam com sangue nos 'olhos' para tocar, então a perspectiva é trazer aquela energia única que colocamos no palco. É o que público sempre espera", disse o baterista da Olhos Imaculados.

Leia também: Contos e Crônicas Antonellianas - Steffanny (parte 4 - final)


Abutre Rock Fest 


Polybius 

O Abutre Rock Fest tem início às 21h, com a abertura da casa e logo a apresentação da Polybius, power trio formado por Deco Pereira (vocal/guitarra), Edmilson Batata (baixo) e Lucas Edsel (bateria). 


O power trio Polybius abre o Abutre Rock Fest 


A Polybius lançou em agosto o single "Chuva Veraneia" (ouça clicando aqui), uma faixa de 5"21' onde a banda mostra suas influências e referências, que se situam entre o rock e o grunge, passando pelo shoegaze e o post-punk. Vale a pena conferir ao vivo.


Olhos Imaculados 

A segunda banda da noite, e headliner do evento, é a Olhos Imaculados. Veterana entre o elenco, formada na última década do século passado, a Olhos Imaculados é formada atualmente por David Henrique (guitarra), Rodrigo Nowak (baixo) e Ciro Jamil (bateria), além do já citado frontman e letrista Seta.


Olhos Imaculados, headliner do Abutre Rock Fest 

Quem acompanha o cenário rock de Manaus já deve ter visto, ou ouviu falar (em vários vieses) dos caras. De discurso e atitudes libertários, a Olhos Imaculados tem uma das melhores entregas performáticas do rock amazonense (confira aqui).


Califa 92

O Abutre Rock Fest, nesta primeira edição, fecha com a novata (porém experiente) Califa 92. Thiago Monassa (vocal), Philipi Dias (guitarra), Rogão (baixo) e Jef Wiler (bateria) trazem a'O Condado um set de autorais e covers carregado no hardcore/skate. 


Califa 92 encerra o Abutre Rock Fest 


A Califa 92 recentemente foi uma das bandas de abertura da volta do grandioso Cólera a Manaus. Conheça mais sobre a banda no califa92_oficial.


SERVIÇO

O que: Abutre Rock Fest com Polybius, Olhos Imaculados e Califa 92 

Quando: Quinta-feira (14/11, véspera de feriado), a partir das 21h

Onde: O Condado Pub (av. Des. João Machado, 6705. Alvorada)

Quanto: R$ 15 (ingresso antecipado via Pix pelo 92 981452941)

*por Artur Mamede 






Contos e Crônicas Antonellianas - Steffanny (parte 4 - final)


Dias depois, soube de sua viagem para São Paulo. Brendha a esperava por lá. Morava em um apê bem ajeitadinho em Diadema. Bairro agitadíssimo. Bares, boates e pubs saindo pelo ladrão. Babado forte. Mas ela estava só de passagem. Não custava lembrar. E Brendha a lembrava sempre: “Não vai te viciar, veada. Nosso destino é Amsterdã, bixa.” Mas a noite era viciante mesmo. Steffanny foi fazendo dinheiro. Se divertindo. Só era ter cuidado com os carecas. Uns lixos. Não gostavam de negros, nordestinos e travestis. Tocavam terror em Diadema. Brendha a advertiu. Steffanny não deu muita bola não. Ainda guardava na bolsinha suas pedrinhas, estilete e o canivete. Seu arsenalzinho de guerra que ela levava consigo aonde quer que fosse. Um fim de noite, saindo de uma das boates, ela parou em um botecozinho pra tomar a saideira com a amiga Brendha e comemorarem juntas a viagem pra Amsterdã, com bilhete já comprado pro dia seguinte. Estava feliz, cheia de expectativas. Radiante. Haviam se divertido à beça na Boate “Ângelus”, dançando as duas uma versão eletrônica de “I Will Survive”, da Glória Gaynor. Que noite! Dali pra manhã, partiu Amsterdã!! Uhuuu!! Mas foi nesse bendito botequim, que ela cruzou olhar com um sujeito moreno, cabelos raspados e que a encarava de uma mesa. Seus olhos eram pequenos e claros. Como os dela. Não podia ser sendo. Inacreditável. Ele insinuava-se de lá, erguendo timidamente seu copo de cerveja, olhando pros lados. Estava hipnotizada. Eram três daquela manhã. Brendha achou que já tinha dado. Precisavam acordar cedo para arrumarem as coisas. “Vai na frente mana, vou fazer mais um programinha.” Disse Steffanny, correspondendo ao olhar do outro. “Mas é tarde, Steffanny!” “Sei. Mas é que tenho umas coisinhas pendentes. Um dia te conto.” A outra concordou. Partiu na frente. Steffanny foi sentar à mesa com o tal carinha. Ele já estava groguinho. Mas rolava. Ora se rolava. Ela não dispensaria aquele bofe por nada nesse mundo. Esperou tanto. As pedras que são pedras não se encontram? Babado forte, mana, babado forte. Foram os dois para um motel mais próximo. Fez questão de pagar o quarto. Ele até espantou-se. Era um motel bem apanhadinho com uma cama redonda, tv, frigobar e até hidromassagem. Glamour-Glamour. O cliente se saiu logo bem apressadinho. Steffanny teve que contê-lo. “Calma, querido, deixo eu olhar bem pra você!” Ela o trouxe pra bem junto dela. Encostou o rosto dele em seu peito. Depois olhou nos olhos dele. Como esqueceria aqueles olhos. Imagens vinham à sua cabeça. Um soco após o outro. E também havia o anel que ele ainda usava no dedo médio: a tal cruz com braços iguais, dobrados em ângulo reto, parecendo uma roda ou um quatro egípcio. Mas que lhe machucou muito. Fez-lhe estragos no rosto e na alma. As lembranças vinham. O ódio lhe tomando conta. É, a vida dá voltas. Dá sim, senhora. “Você é linda pra caralho, gata!” Disse o tal sujeito tentando tocar a odara dela já duríssima. Ela afastou sua mão pro lado. Pediu calma. Disse que era ela quem estava no comando agora. Virou ele de costas e o empurrou violentamente sobre a cama. Tirou seus sapatos e a calça. O traseiro grosseiro e nu à amostra. “Que cê vai fazer, porra?” “Relaxa, bebê! Vais gostar. Sempre gostou e nunca me disse nada. Por isso me espancava, né, seu escroto?” “Que cê tá falando, porra!” Aí então ela empurrou. Meteu pra dentro. Assim, na tora. No seco. Sem creminho nem nada. Ele gemeu alto. Mas não se moveu. Ela empurrou de novo com mais força. Foi entrando tudo. Ele arregalou os olhos. A ficha pareceu ter caído afinal. Mas já era tarde. Ele foi sentindo aquilo entrar e sair do seu cu, rasgando tudo. “Vou te matar, seu viado!” Disse ele. Mas ela já tinha em mãos, o seu canivete. Encostou a arma fria no seu rosto: “Mata agora, desgraça, quero ver!” Não reagiu. Tinha os olhos abertos de pavor. Ela foi metendo mais e mais até onde não podia. A cada estocada era como um soco, um tapa, um pescoção, um safanão que vinha à tona na sua mente em flashes rápidos. Tudo ainda tão vivo e doloroso. Gozou rápido. Depois de gozar, fez um risco fundo em seu rosto em forma de “S” e saiu de dentro dele. Em pé, ainda apontava trêmula o canivete em sua direção enquanto ele sangrava muito, olhando pra ela petrificado. “Se vier, te mato, seu merda!” Ele encarava a irmã, sem ainda acreditar. Ela arrumou-se apressada. Deixou o motel, descendo as escadas apavorada. Porém, vingada. Olhou a rua ainda agitada. Antônio gritava atrás dela só de cuecas. Chamou a atenção de uns carecas que bebiam agora no buteco. Eles conheciam Antônio. Ele fazia parte da gang dos carecas. Steffanny correu deles. Steffanny não era de correr, mas dessa vez precisou correr. Correu muito. Mais do que podia correr com seus altos e elegantes saltos. Mas foi só quando perdeu o equilíbrio e desabou no asfalto é que eles a alcançaram. O irmão ficou vendo de longe. Nada fez para impedir. Nadinha, minha senhora, nadinha. E eram pra mais de cinco. A imobilizaram. A espancaram ali mesmo. Um deles, atingiu-lhe com um soco inglês esfacelando o nariz de Steffanny, também o queixo, o rosto todo. Como se não bastasse, com ela jogada ao chão, chutaram seu corpo pra valer. A largaram na pista agonizando. Ela ainda arrastou-se com vida pro meio fio, se não capaz de ser atropelada igual cachorro. “Saindo com veado agora, caralho?” Disse um deles pra Antônio que não disse nada. Pegaram o beco. 

No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi. Steffanny sorriu com sua boca medonhamente desfigurada querendo dizer aos médicos que eles teriam um trabalhinho danado para recompor seu lindo rosto. Eles não acharam nada engraçado e entraram com ela na sala de cirurgia.

Semanas depois, eu apertava os parafusos na linha de montagem daquela fábrica quando soube de seu féretro transladado para Manaus...       

   

Em relatório divulgado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, o Brasil continua sendo campeão de desrespeito e violência com pessoas trans. Pelo décimo quarto ano seguido, somos o país que mais mata pessoas destes gêneros no mundo todo.

Fonte: radioagência-nacional/direitos humanos.


Manaus, 30.10.2024

*Márcia Antonelli é transcritora 




sexta-feira, 8 de novembro de 2024

CONTO DA SEMANA: Martinha


Acordou cedo naquela manhã e se encaminhou para a escola da filha, era dia de reunião dos pais. Avisou na empresa que chegaria mais tarde. Trabalhava como motorista em uma transportadora de pequenas encomendas. Acompanhava de perto a vida escolar da filha Martinha, que tinha 9 anos e estava na quarta série primaria na Escola Municipal Presidente Manuel Ferraz, no Campos Sales, bairro onde morava com a mãe, pai e a avó materna. 

Foi recebido pela diretora da escola, que já aguardava sua presença, ela o levou para a sua sala e conversaram sobre como andavam as coisas desde a última reunião. Ele era uma pessoa amigável e já conhecida devido a sua presença na escola no acompanhamento das atividades de Martinha. Os pais são pouco participativos na vida escolar das crianças, esse papel é geralmente destinado as mães e avós, ou a alguma outra figura feminina da família. Então, os pouco pais que participavam ativamente das atividades da escola eram facilmente reconhecidos no meio dos demais.

Após a conversa, foi encaminhado para o auditório da escola onde receberia as informações gerais dos temas da reunião. Ouviu atentamente a cada informações, fazendo anotações das datas e eventos em seu celular. Apresentações, feiras, contribuições necessárias e etc. Ao fim, se encaminhou para a sala dos professores para cumprimentar uma a uma as professoras de Martinha. Perguntou como ela estava se saindo e se gostariam de falar com ele sobre alguma situação ou orientação a respeito da filha. Disse que Martinha havia faltado alguns dias devido a um pequeno incidente, mas que já estava tudo bem. E que já havia deixado o atestado médico na escola para justificar suas faltas. Era de fato muito preocupado com a filha e com seu desenvolvimento na escola.

As professoras, que já o conheciam, disseram que nada haviam para informa-lo, uma delas preferiu não falar, pediu para que a colega o informasse a mesma coisa. Não havia nada a dizer. Agradeceu a atenção das professoras e se colocou a disposição para qualquer situação.  Qualquer coisa pode me ligar ou para a mãe dela. A diretora tem meu número, falou. Agradeceu mais uma vez, desejou bom dia a todos com ternura e seguiu para o seu trabalho. As professoras se olharam com certa preocupação e retornaram aos seus afazeres.

Ao chegar em casa a noite chamou a esposa e sorrindo disse “nem lembrou que dia era hoje, ne?” a esposa busca na mente uma informação que não encontra e retorna a pergunta. O que tem hoje?, foi a reunião da escola da Martinha. Sorriu. Mas não se preocupe, eu fui. Você tem estado cansada e muito atarefada, decidi não lhe acordar já que era seu dia de folga, mas eu resolvi, não foi nada de mais, apenas informativos dos eventos da escola nesse bimestre, depois lhe passo. E Martinha esta bem nas aulas.

A esposa já com um semblante de decepção e preocupação, depois de um certo momento de silencio fala: Meu bem, porque fez isso? Você sabe que Martinha não está mais na escola. O marido ignorou a informação e seguiu para o quarto de Martinha. A esposa seguiu para a cozinha com lágrimas nos olhos e com o coração em pedaços. A verdade é que martinha não sobreviveu ao acidente da van escolar, foi a única das cinco crianças que perdeu a vida devido a um trauma na cabeça após a colisão da van com um micro ônibus. 

O pai se negou a aceitar a situação desde o primeiro momento, entrou em estado de negação e se trancou no quarto, não quis ir ao velório na igreja do bairro e também se recusou a ir no enterro, e desde então seguiu a vida como se nada tivesse acontecido. E se nega a falar sobre o assunto, ignorando tudo e todo que tentam. Os familiares não sabiam mais como o ajudar, se recusa a ir ao médico. Não entende o motivo da preocupação com ele. No quarto de Martinha, religiosamente todas as noites, ainda lê sua história de princesa preferida, para a cama vazia.


*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita 





quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Contos e Crônicas Antonellianas - Steffanny (parte 3)


Começou a juntar dinheiro, esperta que era. Já estava em forma outra vez. Carros paravam pra ela. Carrinhos e carrões. Não fazia distinção. Era só pôr o pé na pista e já parava um carro. As pernas longas e o tok tok dos saltos na direção da clientela: “Quanto, bebê?” “Cento e cinquenta, incluindo o boquete.” Sempre classuda nas suas roupas comportadas. Nada de extravagância. Não era bixa baixa não. A Odara bem acuendada. Glamour-glamour. Voltar negativa pra casa? jamé, meu bem! Agora com a ideia da viagem pra Europa, morreu de colar. Acuézão antecipado. Mais cinquenta se rolar cunete, então são trezentos e cinquenta. Nesse nível, tá mana? Na tabelinha. Não lhe faltava um unicozinho cliente. Estou lhe dizendo. Nhaí, mapô, se ligue! Steffanny era do dendê, do saroyê, do bajubá. Oxi, oxi, pensa que é assim bagunçado? Né, não, nêga. Pegue a visão, tá meu bem!! Foi ela quem me ensinou a ter postura. Foi no quarto de sua casa, uma tarde. Um quarto bem arrumadinho com a parede repleta de posters de celebridades. Inclusive a de sua preferida: a princesa de Mônaco, a qual era super fã. Aí ela me disse, jogando o cabelo pro lado: “Ajeita esta coluna, mulher! Ande sempre ereta olhando pra frente, nunca pra baixo. Por que não largas desse emprego besta e cai no mundo, veada?” E ela estava certa. Eu tinha um emprego besta no Distrito Industrial. Apertava parafusos na linha de montagem da Moto Honda. Pegava às seis, largava as quinze. Não tinha uma alma livre como a dela. A coragem de me assumir. De cair no mundo. Chutar o balde. Tinha não, minha senhora, tinha, não. Por isso eu admirava Steffanny. Me espelhava nela. A última vez que a vi, eram cinco e pouco da manhã. Aguardava minha condução na parada. Vinha ela bêbada, cheirada, naquele modelo, mas nunca trocando os pés sobre os finos saltos. Glamour-Glamour. A vi subindo a rua na companhia de um morcegão malencaradíssimo. Nunca voltava pra casa sozinha. Arrastava o que restava pelo caminho. Olhou pra mim e disse: “Vou ali fazer esse bofe, se eu não voltar, já sabe.” Não era a primeira vez. Sempre levava os morcegões pros terrenos baldios pra fumarem a última pedra. E trepar. Depois de cheirada e craqueada, Steffanny trepava com os morcegões nos terrenos baldios ou em cima das tampas de esgotos das galerias. Passada, mana, passada. 

*por Márcia Antonelli é transcritora 





Charles

  O pai veio do Nordeste, a mãe do interior, rio Juruá. O menino nasceu dentre outros tantos do ventre daquela mulher parideira. Naquela do ...