sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Charles

 


O pai veio do Nordeste, a mãe do interior, rio Juruá. O menino nasceu dentre outros tantos do ventre daquela mulher parideira. Naquela do época, o Alvorada era um bairro recém loteado com chão batido de terra e terrenos frutíferos que atraíam a criançada que se pendurava entre os galhos para roubar um abacate aqui ou umas goiabas acolá. Um estreito igarapé corria atrás do terreno da família de Charles onde logo a invasão de palafitas se instalou e um lixão se formou.

O lixo é a herança que a humanidade deixou para a Terra, zilhões de toneladas de restos de nada produzidos diariamente, e em Manaus não seria diferente. A porcariada toda se acumulava à céu aberto atraindo urubus famintos e crianças ávidas para encontrar algo interessante. Uma lata de sardinha afiada virava uma carreta, um arame enferrujado servia de corda, um vidro de xarope vencido era disputado entre os menores sedentos por açúcar.

E Charles vivia feliz entre os seus. Passava horas subindo e descendo as ladeiras do bairro com a bike velha do vizinho e frequentemente chegava todo quebrado de suas excursões. Um dia a queda da magrela foi feia e apareceu com o rosto esfolado e quase desfigurado, mas a mãe tratou com babosa durante dias o que resultou numa bela cicatrização. “Um santo remédio”, dizia. Às vezes gazetava aula para ir atrás dos mais velhos fumar um cigarro e dar um trago num corote, deixando a mãe emputecida ao chegar em casa grogue e fedido. Ela nunca contava essas presepadas de Charles para o marido com medo das reações violentas que certamente teria, muito embora o homem o amasse, isso era certo. Nos domingos de manhã, Charles era o escolhido para acompanhar o pai até a feira da avenida J ou a barbearia da rua cinco. Sempre ganhava um dim dim ou um pirulito de regalo enquanto esperava o pai aparar os cabelos e o bigode. O menino adorava ter o privilégio de passar essas horas exclusivas e raras ao lado do pai, se sentia seguro e vibrante.

Apesar de aparentemente comum, Charles era mais sensível às emoções do que os demais além de ter familiaridade com visagens. Não falava muito sobre o assunto em casa pois sabia que a mãe, muito religiosa, não gostava dessa prosa. Mas os “outros” visitavam o menino frequentemente, desde muito criança, fato que o deixava confuso muitas vezes pois não sabia se estava interagindo com alguém de carne e osso ou não. Para ele essa fronteira era tênue, saca? Na verdade, sequer existia. O pai sempre notava o menino falando “sozinho” ou dividindo seu dim dim com “ninguém” quando estavam na barbearia, mas nunca tocava no assunto. “Coisa de criança”, pensava.

Fato é que no início da puberdade de Charles, uma profunda tristeza abateu permanentemente a família. A morte chegou cedo demais, levando o pai, sem negociatas, aos 39 anos de idade. O homem era trabalhador e comprometido com o sustento da família. Foi ataque do coração. Na verdade, adoeceu de exaustão, no ofício de erguer paredes e tetos daquela cidade em expansão, 12 horas diárias sem folga do patrão. A mãe padeceu pouco tempo depois, de profunda tristeza e solidão.

Após a morte dos pais, Charles foi negligenciado pela família, pois as visitas dos “outros” tornaram-se mais frequentes e ele passou a dedicar atenção especial a seus companheiros, eram engraçados e faziam ele rir e se esquecer das brigas, da solidão e da morte. Alguns eram sujos e maltrapilhos, mas ele gostava de todos, afinal eram seus amigos. “Vem com a gente Charles, lá fora é mais divertido!” ouvia frequentemente, e esse chamado o atraía mais e mais.

O primeiro surto ocorreu na adolescência. Amanheceu apavorado pedindo aos berros para o pai voltar imediatamente para casa se não ele mesmo iria buscá-lo. E foi. Passou dias na rua até um irmão localizá-lo em frente ao Roadway pedindo dinheiro para comprar uma passagem para o céu. Foi internado no Eduardo Ribeiro onde recebeu medicamentos e liberação após alguns dias. Mas ninguém estava disposto a fazer o necessário para que Charles iniciasse um tratamento, e a bem da verdade, os irmãos sentiam-se era em paz quando Charles passava dias na rua. Porém, voltava fedido e seminu. Cheio de piolhos e uma camada dura de fuligem sobre a pele. Ninguém se importava muito, era deixado ao relento, dormindo no chão de madeira em frente à casa. Por fim, Charles atendeu definitivamente ao chamado e partiu para viver na rua com os “outros”. Mas, como temia voltar para aquele hospital torturador ou ser esquecido para sempre pelos pais, decidiu junto de seus amigos, que ficariam pelas redondezas do bairro para esperá-los perto de casa.

Desde então, Charles vagueia pelas ruas do Alvorada, descalço e com seu shortinho pega rapaz preto. Prefere ficar na cinco, em frente a barbearia onde toda manhã ganha um pão com café que para ele tem gosto de domingo com dim dim, mas às vezes fica na J, onde o movimento é intenso e a chance de encontrar os pais indo para a feira certamente é maior.

Quem sempre está pela J é uma mulher com seus 50 anos, talvez mais, que caminha elegantemente, trajando seu nada, entre os carros da principal do Alvorada 2. Às vezes repousa sobre o chão cru em frente à Santo Remédio que fica de esquina com a nove. Totalmente vulnerável. Tanto quanto aquela do centro, que naquele dia caminhava nua e menstruada pela Epaminondas. Já Doidinha, que deve ter 20 anos, não mais, vive perambulando pelas ruas do Nova Esperança, vestida de saia rodada e blusa colorida, esbanjando seu ar angelical e sorriso de menina. Feliz em seus sonhos infantis, indiferente com qualquer um que cruze seu caminho. Diferente daquela jovem senhora que fica parada e... calada. Acanhada. Sempre séria e sentada em frente à vila de kitnets da rua X, não sai de lá nem com balde de água fria.

Todos foragidos a tempos da condição de cidadãos, perdidos em seus delírios pessoais, cada qual em sua viagem interior. Moradores das ruas por motivos de loucura. Abandonados pela família. Renegados pelo Sistema. Não há ninguém por elas. Não há ninguém por Charles.


*Andressa Giacomin é professora da rede pública de Manaus, doutoranda do INPA e escritora

Foto de capa: frame de "Holocausto Brasileiro" (2016)


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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

CONTO DA SEMANA - Tanatopraxia

 


Depois de mais uma semana de excessos, Carlinhos decidiu que ia dar um rumo em sua vida. Organizou a casa. Naquela semana serviu dignamente ao trabalho como nunca antes havia feito, e buscou na memória todas as pendências existentes com outras pessoas: amores mal resolvidos, família, amigos, ex-amigos, tudo e todos que em algum momento os acasos da vida haviam feito mágoas e rancor.

Listou cuidadosamente em ordem de importância os nomes que lhe vieram à mente e escreveu-lhes um a um longas mensagens de texto pedindo desculpas. Tentava explicar seus motivos, ou a falta deles, para justificar os desentendimentos causados até ali.

De alguns ex-amigos recebeu o afago do perdão, de outros nem resposta teve. Não ser respondido também é uma resposta, pensou sorrindo e levantando levemente as sobrancelhas em um gesto de auto perdão. Dos ex-amores foi chamado de cínico, e de fato talvez o fosse. Mas quem não é, não é mesmo?! 

Sentiu-se leve. Agora era a vez da família. Visitou a mãe que há tempos de sua vida a afastara por diversos motivos que não cabem descrever. Família né? cada uma com suas merdas. Ninguém sai ileso delas. Lágrimas e longos abraços, havia retomado o afeto de uma das únicas pessoas que o respeitava. Resolvido! 

Agora Carlinhos era um homem sem pendências e poderia recomeçar. Voltou pra casa e abriu o guarda roupas, escolheu cuidadosamente cada peça. Queria se sentir bem e estar apresentável. Sempre foi uma pessoa vaidosa, apesar dos altos e baixos da vida. Ouviu em algum lugar que as roupas que uma pessoa veste passam uma mensagem, levava isso a sério. Queria ser levado a sério, tentou ser levado a sério a vida toda... 

Separou a calça, uma camisa recém comprada para a ocasião, o sapato e um cinto de mesma cor, por último separou seus acessórios preferidos: cordões e pulseiras de prata, que quando os usava se sentia-se poderoso, em sua mente, eles lhe davam um ar mais sério e um certo charme misterioso. Tudo pronto!

Em seguida, laceou o pescoço com o punho da rede e se lançou do alto da cadeira, como quem mergulha em um rio de águas mornas em busca de alívio numa tarde de verão. Um som seco surdo soou de seu pescoço. Era o fim.  Aliviado e em paz, enforca-se Carlinhos.

*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita 




Contos e Crônicas Antonellianas - A travequinha vendedora de panfletos


Vivo da minha escrita em Manaus. Ela me sustenta e eu a sustento. Foi este o trato. Vou de mesa em mesa nos bares vendendo meus escritos. Também me aventuro em portas de teatros e outros estabelecimentos afins. Engulo cada sapo. Não pensem os senhores que é fácil ser escritor em Manaus. 

Aqui ainda sou vista como a travequinha vendedora de panfletos. Sou capaz de ouvir de longe alguém se queixar: “Lá vem aquela travequinha com seus panfletinhos.” 

Até que não me abalo muito. Tolstoi começou sua carreira de escritor escrevendo panfletos. Os panfletos de Tolstoi são a parte menos conhecida de seu trabalho, e o ataque à Shakespeare a quem ele desfere não é um documento literário fácil de se obter. 

Bem, voltemos a mim que não sou Tolstoi. Sendo ou não uma travequinha vendedora de panfletos, toco minha vida de escritora. Se as pessoas entendessem que o que faço é literatura. Bem, pelo menos acredito que seja. Mas, sabe, as vezes sou tentada a mudar de vida. Bate um desânimo foda. Não faz muito tempo, conheci um simpático casal bebendo num desses bares em torno da Praça São Sebastião. Ofereci, é claro, meus livretos. Valho-me sempre de uma boa retórica para impressionar. O sujeito fitou-me admirado e disse:

“Nossa, você fala muito bem. Tens uma oratória perfeita. Mas hoje não posso levar. No entanto, faço-lhe uma proposta. Venha trabalhar comigo vendendo pneus. Tenho uma loja de pneus na Praça 14 de janeiro e estou precisando de vendedoras como você. Pago bem meus funcionários.” Deu-me seu cartão. Guardei no bolso. 

Confesso que titubeei. Ocorre que não me vejo fazendo outra coisa senão escrevendo. Ora, veja, vendedora de pneus. Da outra feita, esbarrei com um velho amigo do bairro de Educandos que tinha se dado bem no ramo de bombonieres e agora bebia sua cerveja como um lorde no bar do Lusitano. Ofereci meus livretos:

“Antonelli, ainda está com esta mania de vender panfletos?”

“Não são panfletos, são livretos.”

“Dá no mesmo. Senta aí, pago uma cerveja.” Sentei. Pelas tantas, ele me disse:

“Estou precisando de vendedoras na minha bomboniere, e você é boa nisso. Tem uma lábia perfeita. Quer trabalhar para mim?”

“Vendendo bombons?"

“Bonbons e docinhos também, estou entrando no ramo de doces.” Eu não disse nada. Pedi licença dele e fui às outras mesas. Era uma noite difícil para as vendas. E havia as cobranças batendo à tua porta, a ração dos gatos e eu não havia vendido nada até ali. 

Olhei para a mesa deste meu amigo. Ele permanecia lá, sentado, dono de si, bebendo elegantemente sua cerveja. Todos em volta dele bebiam tranquilos e felizes suas cervejas. Todos em Manaus são felizes bebendo suas cervejas. Confesso que por um triz, quase reconsidero a sua proposta. Vendedora de bombons, só me faltava essa. Quase vacilo.

Manaus, 24 e abril de 2024

*Márcia Antonelli é transcritora 




terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Dalton Trevisan. Obituário

Dalton Trevisan e Anthon Tchecov foram os escritores que me encorajaram a mergulhar no universo dos microcontos. Mas rendo hoje aqui minhas homenagens à Dalton Trevisan, conhecido como O Vampiro de Curitiba e que nos deixou.  Aliás, Dalton tem uma obra de contos com este título: “O Vampiro de Curitiba que já recomendo.

A obra de Dalton Trevisan é impecável: brutalidade e miséria. Crueza da vida e do mundo. Eis a tônica inconfundível deste que é considerado merecidamente um dos melhores contistas do Brasil. Mestre da escrita minimal-animal. Com uma narrativa direta, enxuta, cheia de flashes do cotidiano, Dalton nos cativa e nos apaixona. Pois que  apropria-se de uma linguagem coloquial chegando a beirar o chulo mas nunca beirando, porque ainda sim, sua escrita é fina, elegante, fantástica. Foi um mestre, sem dúvida. Singular. Dono de uma dicção plena e única sem arredar um milímetro que seja de suas convicções literárias.  Portanto , não é fácil classificá-lo ou estuda-lo. Basta lê-lo. Viajar nas suas histórias e em suas crendices curitibanas  que nos revelam com lirismo, precisão estilística e concisa, o humanamente humano  dos espectros da crueza da vida e do mundo que nos cercam.


“A fumaça da chuva sobe pelas chaminés das casas e se espalha sobre a cidade. Um fio de silêncio cai de gota a gota da chuva. As gatas dengosas se viram de costas para dormir. Chuva, chuvinha, um lado da palmeira nunca se molha.

O Vampiro de Curitiba recolhe então suas asas na noite que se estende fria e sem respostas...”

Foto rara de Dalton Trevisan que não gostava de aparições


*Márcia Antonelli é transcritora 


Manaus, 10.12.2024




quinta-feira, 14 de novembro de 2024

CONTO DA SEMANA: A Morte de Wagner

 


Wagner tinha 15 anos, era aluno do oitavo ano da escola em que trabalho como professor. Numa tarde, aproveitou que seus pais foram ao supermercado e deu um tiro na cabeça com a arma do próprio pai, policial militar. Era um domingo. 10 de março de 2024. Domingo é foda...

No dia seguinte, 11 de março, na escola, chegou a informação que um de nossos alunos faleceu no dia anterior. É sempre pesado receber essas notícias na escola. Fica escancarada a crueza da situação. Já tive algumas experiencias desse tipo. O clima pesa e não há muito o que dizer. Inicialmente não se sabia a causa de sua morte. Ficaram só os questionamentos e os lamentos da partida precoce do jovem rapaz. Logo depois surgiu a notícia, havia sido suicídio e a história foi contada em partes, com as informações disponíveis até o momento. O clima pesou ainda mais. Não tem como ser diferente. 15 anos, era uma criança, praticamente.

Aguardamos o posicionamento da escola em total desanimo pelo choque recebido. Esperávamos a suspensão das aulas naquele dia, em solidariedade e luto ao rapaz. Assim como ocorreu em outros momentos em que passamos pela mesma situação. Mas nada aconteceu. O clima foi ficando esquisito. Os professores se olhavam como se soubessem o que estava acontecendo, mas sem falar nada. Continuamos aguardando.

Após um tempo, e sem muitos esforços, deduzimos que a coordenação da secretaria de educação junto aos seus subordinados imediatos, vulgos capachos, não autorizaram a suspensão do dia letivo para não dar visibilidade ao caso. Covardes filhos da puta! A vida não vale nada mesmo pra esses caras. É impossível sensibilizar a máquina, pensei sozinho enquanto tomava um café e olhava o movimento lento dos colegas pela sala, todos meio desorientados sem saber como agir, inclusive eu.

Uma nota vagabunda de pesar é postada nas redes sociais da escola, que logo recebe comentários revelando o ocorrido. A nota é apagada e repostada para que os comentários não apareçam. Que cinismo do caralho! Meu estômago embrulha imediatamente. Os professores da turma em que Wagner estudava se recusam a ir pra sala nesse dia. Um pequeno gesto de respeito diante do descaso da instituição. E assim fizeram. Professor é foda, quando está pra briga ninguém segura.

Setembro amarelo é o caralho. Pensei comigo quando um dos professores informou que nem a própria turma em que Wagner estudava foi dispensada e estavam como zumbis pelos corredores chorando a perda do colega. Uma cena de cortar o coração. Observo atento uma colega argumentando que isso pode ter sido apenas um infeliz acidente. Acho bonita a inocência em certos momentos. Tem seu valor. Ela também protege em alguns casos. 

Os evangélicos argumentam que pode ter sido falta de Deus na vida dele. A juventude de hoje está muito vulnerável, disseram. Foda. Sempre esse mesmo papo, que no fim das contas não diz poha nenhuma. Uma professora levanta o problema do acesso às armas de fogo. Os pró armas, que a pouco tempo defendiam o acesso, se calam. Não é nada legal quando a arma mata filho de policial. Não é pra matar esse tipo de gente que eles querem vê-las legalizadas. 

Ouço calado, como sempre, a conclusão da argumentação de todos, e devolvo a eles um sorriso apático de desconforto e indignação, balançando a cabeça em sinal de concordância. Lembro que todos os dias, dentro de mim, um jovem também estoura a sua cabeça. As horas se passaram lentamente nesta tarde. O último sinal do dia tocou soando como a sirene do carro funerário que levou Wagner para o seu último destino. Caminho cabisbaixo em direção a saída. Fim do dia. Atravesso o portão e me sinto um pouco mais humano. Descanse em paz, Wagner. Que sua passagem seja leve. 


*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita 




quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Olhos Imaculados fecha com Polybius e Califa 92 para o Abutre Rock Fest

 


Veterana banda agitadora do ecossistema musical independente amazonense, a Olhos Imaculados encabeça o Abutre Rock Fest e convida para o palco d'O Condado, as bandas Polybius e Califa 92, para mais uma amostra do que é produzido e executado no rock manauara.


"Esperamos que o público possa conhecer os nomes que estão na lista de apresentação. Que seja mais uma vitrine e de apoio ao rock autoral e pelos covers apresentados", disse Edilson Seta, vocalista da Olhos Imaculados.


Cartaz oficial do Abutre Rock Fest 

Sobre a nada fácil arte de se fazer rock no Amazonas, Ciro Jammil dá a letra. "Espero que o público compareça. Reunir a Olhos para fazer um evento um show é desafiador. O Seta vem de Manacapuru, o Rodrigo vem da comunidade depois de Tupé, todos chegam com sangue nos 'olhos' para tocar, então a perspectiva é trazer aquela energia única que colocamos no palco. É o que público sempre espera", disse o baterista da Olhos Imaculados.

Leia também: Contos e Crônicas Antonellianas - Steffanny (parte 4 - final)


Abutre Rock Fest 


Polybius 

O Abutre Rock Fest tem início às 21h, com a abertura da casa e logo a apresentação da Polybius, power trio formado por Deco Pereira (vocal/guitarra), Edmilson Batata (baixo) e Lucas Edsel (bateria). 


O power trio Polybius abre o Abutre Rock Fest 


A Polybius lançou em agosto o single "Chuva Veraneia" (ouça clicando aqui), uma faixa de 5"21' onde a banda mostra suas influências e referências, que se situam entre o rock e o grunge, passando pelo shoegaze e o post-punk. Vale a pena conferir ao vivo.


Olhos Imaculados 

A segunda banda da noite, e headliner do evento, é a Olhos Imaculados. Veterana entre o elenco, formada na última década do século passado, a Olhos Imaculados é formada atualmente por David Henrique (guitarra), Rodrigo Nowak (baixo) e Ciro Jamil (bateria), além do já citado frontman e letrista Seta.


Olhos Imaculados, headliner do Abutre Rock Fest 

Quem acompanha o cenário rock de Manaus já deve ter visto, ou ouviu falar (em vários vieses) dos caras. De discurso e atitudes libertários, a Olhos Imaculados tem uma das melhores entregas performáticas do rock amazonense (confira aqui).


Califa 92

O Abutre Rock Fest, nesta primeira edição, fecha com a novata (porém experiente) Califa 92. Thiago Monassa (vocal), Philipi Dias (guitarra), Rogão (baixo) e Jef Wiler (bateria) trazem a'O Condado um set de autorais e covers carregado no hardcore/skate. 


Califa 92 encerra o Abutre Rock Fest 


A Califa 92 recentemente foi uma das bandas de abertura da volta do grandioso Cólera a Manaus. Conheça mais sobre a banda no califa92_oficial.


SERVIÇO

O que: Abutre Rock Fest com Polybius, Olhos Imaculados e Califa 92 

Quando: Quinta-feira (14/11, véspera de feriado), a partir das 21h

Onde: O Condado Pub (av. Des. João Machado, 6705. Alvorada)

Quanto: R$ 15 (ingresso antecipado via Pix pelo 92 981452941)

*por Artur Mamede 






Contos e Crônicas Antonellianas - Steffanny (parte 4 - final)


Dias depois, soube de sua viagem para São Paulo. Brendha a esperava por lá. Morava em um apê bem ajeitadinho em Diadema. Bairro agitadíssimo. Bares, boates e pubs saindo pelo ladrão. Babado forte. Mas ela estava só de passagem. Não custava lembrar. E Brendha a lembrava sempre: “Não vai te viciar, veada. Nosso destino é Amsterdã, bixa.” Mas a noite era viciante mesmo. Steffanny foi fazendo dinheiro. Se divertindo. Só era ter cuidado com os carecas. Uns lixos. Não gostavam de negros, nordestinos e travestis. Tocavam terror em Diadema. Brendha a advertiu. Steffanny não deu muita bola não. Ainda guardava na bolsinha suas pedrinhas, estilete e o canivete. Seu arsenalzinho de guerra que ela levava consigo aonde quer que fosse. Um fim de noite, saindo de uma das boates, ela parou em um botecozinho pra tomar a saideira com a amiga Brendha e comemorarem juntas a viagem pra Amsterdã, com bilhete já comprado pro dia seguinte. Estava feliz, cheia de expectativas. Radiante. Haviam se divertido à beça na Boate “Ângelus”, dançando as duas uma versão eletrônica de “I Will Survive”, da Glória Gaynor. Que noite! Dali pra manhã, partiu Amsterdã!! Uhuuu!! Mas foi nesse bendito botequim, que ela cruzou olhar com um sujeito moreno, cabelos raspados e que a encarava de uma mesa. Seus olhos eram pequenos e claros. Como os dela. Não podia ser sendo. Inacreditável. Ele insinuava-se de lá, erguendo timidamente seu copo de cerveja, olhando pros lados. Estava hipnotizada. Eram três daquela manhã. Brendha achou que já tinha dado. Precisavam acordar cedo para arrumarem as coisas. “Vai na frente mana, vou fazer mais um programinha.” Disse Steffanny, correspondendo ao olhar do outro. “Mas é tarde, Steffanny!” “Sei. Mas é que tenho umas coisinhas pendentes. Um dia te conto.” A outra concordou. Partiu na frente. Steffanny foi sentar à mesa com o tal carinha. Ele já estava groguinho. Mas rolava. Ora se rolava. Ela não dispensaria aquele bofe por nada nesse mundo. Esperou tanto. As pedras que são pedras não se encontram? Babado forte, mana, babado forte. Foram os dois para um motel mais próximo. Fez questão de pagar o quarto. Ele até espantou-se. Era um motel bem apanhadinho com uma cama redonda, tv, frigobar e até hidromassagem. Glamour-Glamour. O cliente se saiu logo bem apressadinho. Steffanny teve que contê-lo. “Calma, querido, deixo eu olhar bem pra você!” Ela o trouxe pra bem junto dela. Encostou o rosto dele em seu peito. Depois olhou nos olhos dele. Como esqueceria aqueles olhos. Imagens vinham à sua cabeça. Um soco após o outro. E também havia o anel que ele ainda usava no dedo médio: a tal cruz com braços iguais, dobrados em ângulo reto, parecendo uma roda ou um quatro egípcio. Mas que lhe machucou muito. Fez-lhe estragos no rosto e na alma. As lembranças vinham. O ódio lhe tomando conta. É, a vida dá voltas. Dá sim, senhora. “Você é linda pra caralho, gata!” Disse o tal sujeito tentando tocar a odara dela já duríssima. Ela afastou sua mão pro lado. Pediu calma. Disse que era ela quem estava no comando agora. Virou ele de costas e o empurrou violentamente sobre a cama. Tirou seus sapatos e a calça. O traseiro grosseiro e nu à amostra. “Que cê vai fazer, porra?” “Relaxa, bebê! Vais gostar. Sempre gostou e nunca me disse nada. Por isso me espancava, né, seu escroto?” “Que cê tá falando, porra!” Aí então ela empurrou. Meteu pra dentro. Assim, na tora. No seco. Sem creminho nem nada. Ele gemeu alto. Mas não se moveu. Ela empurrou de novo com mais força. Foi entrando tudo. Ele arregalou os olhos. A ficha pareceu ter caído afinal. Mas já era tarde. Ele foi sentindo aquilo entrar e sair do seu cu, rasgando tudo. “Vou te matar, seu viado!” Disse ele. Mas ela já tinha em mãos, o seu canivete. Encostou a arma fria no seu rosto: “Mata agora, desgraça, quero ver!” Não reagiu. Tinha os olhos abertos de pavor. Ela foi metendo mais e mais até onde não podia. A cada estocada era como um soco, um tapa, um pescoção, um safanão que vinha à tona na sua mente em flashes rápidos. Tudo ainda tão vivo e doloroso. Gozou rápido. Depois de gozar, fez um risco fundo em seu rosto em forma de “S” e saiu de dentro dele. Em pé, ainda apontava trêmula o canivete em sua direção enquanto ele sangrava muito, olhando pra ela petrificado. “Se vier, te mato, seu merda!” Ele encarava a irmã, sem ainda acreditar. Ela arrumou-se apressada. Deixou o motel, descendo as escadas apavorada. Porém, vingada. Olhou a rua ainda agitada. Antônio gritava atrás dela só de cuecas. Chamou a atenção de uns carecas que bebiam agora no buteco. Eles conheciam Antônio. Ele fazia parte da gang dos carecas. Steffanny correu deles. Steffanny não era de correr, mas dessa vez precisou correr. Correu muito. Mais do que podia correr com seus altos e elegantes saltos. Mas foi só quando perdeu o equilíbrio e desabou no asfalto é que eles a alcançaram. O irmão ficou vendo de longe. Nada fez para impedir. Nadinha, minha senhora, nadinha. E eram pra mais de cinco. A imobilizaram. A espancaram ali mesmo. Um deles, atingiu-lhe com um soco inglês esfacelando o nariz de Steffanny, também o queixo, o rosto todo. Como se não bastasse, com ela jogada ao chão, chutaram seu corpo pra valer. A largaram na pista agonizando. Ela ainda arrastou-se com vida pro meio fio, se não capaz de ser atropelada igual cachorro. “Saindo com veado agora, caralho?” Disse um deles pra Antônio que não disse nada. Pegaram o beco. 

No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi. Steffanny sorriu com sua boca medonhamente desfigurada querendo dizer aos médicos que eles teriam um trabalhinho danado para recompor seu lindo rosto. Eles não acharam nada engraçado e entraram com ela na sala de cirurgia.

Semanas depois, eu apertava os parafusos na linha de montagem daquela fábrica quando soube de seu féretro transladado para Manaus...       

   

Em relatório divulgado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, o Brasil continua sendo campeão de desrespeito e violência com pessoas trans. Pelo décimo quarto ano seguido, somos o país que mais mata pessoas destes gêneros no mundo todo.

Fonte: radioagência-nacional/direitos humanos.


Manaus, 30.10.2024

*Márcia Antonelli é transcritora 




Charles

  O pai veio do Nordeste, a mãe do interior, rio Juruá. O menino nasceu dentre outros tantos do ventre daquela mulher parideira. Naquela do ...