O pai veio do Nordeste, a mãe do interior, rio Juruá. O menino nasceu dentre outros tantos do ventre daquela mulher parideira. Naquela do época, o Alvorada era um bairro recém loteado com chão batido de terra e terrenos frutíferos que atraíam a criançada que se pendurava entre os galhos para roubar um abacate aqui ou umas goiabas acolá. Um estreito igarapé corria atrás do terreno da família de Charles onde logo a invasão de palafitas se instalou e um lixão se formou.
O lixo é a herança que a humanidade deixou para a Terra, zilhões de toneladas de restos de nada produzidos diariamente, e em Manaus não seria diferente. A porcariada toda se acumulava à céu aberto atraindo urubus famintos e crianças ávidas para encontrar algo interessante. Uma lata de sardinha afiada virava uma carreta, um arame enferrujado servia de corda, um vidro de xarope vencido era disputado entre os menores sedentos por açúcar.
E Charles vivia feliz entre os seus. Passava horas subindo e descendo as ladeiras do bairro com a bike velha do vizinho e frequentemente chegava todo quebrado de suas excursões. Um dia a queda da magrela foi feia e apareceu com o rosto esfolado e quase desfigurado, mas a mãe tratou com babosa durante dias o que resultou numa bela cicatrização. “Um santo remédio”, dizia. Às vezes gazetava aula para ir atrás dos mais velhos fumar um cigarro e dar um trago num corote, deixando a mãe emputecida ao chegar em casa grogue e fedido. Ela nunca contava essas presepadas de Charles para o marido com medo das reações violentas que certamente teria, muito embora o homem o amasse, isso era certo. Nos domingos de manhã, Charles era o escolhido para acompanhar o pai até a feira da avenida J ou a barbearia da rua cinco. Sempre ganhava um dim dim ou um pirulito de regalo enquanto esperava o pai aparar os cabelos e o bigode. O menino adorava ter o privilégio de passar essas horas exclusivas e raras ao lado do pai, se sentia seguro e vibrante.
Apesar de aparentemente comum, Charles era mais sensível às emoções do que os demais além de ter familiaridade com visagens. Não falava muito sobre o assunto em casa pois sabia que a mãe, muito religiosa, não gostava dessa prosa. Mas os “outros” visitavam o menino frequentemente, desde muito criança, fato que o deixava confuso muitas vezes pois não sabia se estava interagindo com alguém de carne e osso ou não. Para ele essa fronteira era tênue, saca? Na verdade, sequer existia. O pai sempre notava o menino falando “sozinho” ou dividindo seu dim dim com “ninguém” quando estavam na barbearia, mas nunca tocava no assunto. “Coisa de criança”, pensava.
Fato é que no início da puberdade de Charles, uma profunda tristeza abateu permanentemente a família. A morte chegou cedo demais, levando o pai, sem negociatas, aos 39 anos de idade. O homem era trabalhador e comprometido com o sustento da família. Foi ataque do coração. Na verdade, adoeceu de exaustão, no ofício de erguer paredes e tetos daquela cidade em expansão, 12 horas diárias sem folga do patrão. A mãe padeceu pouco tempo depois, de profunda tristeza e solidão.
Após a morte dos pais, Charles foi negligenciado pela família, pois as visitas dos “outros” tornaram-se mais frequentes e ele passou a dedicar atenção especial a seus companheiros, eram engraçados e faziam ele rir e se esquecer das brigas, da solidão e da morte. Alguns eram sujos e maltrapilhos, mas ele gostava de todos, afinal eram seus amigos. “Vem com a gente Charles, lá fora é mais divertido!” ouvia frequentemente, e esse chamado o atraía mais e mais.
O primeiro surto ocorreu na adolescência. Amanheceu apavorado pedindo aos berros para o pai voltar imediatamente para casa se não ele mesmo iria buscá-lo. E foi. Passou dias na rua até um irmão localizá-lo em frente ao Roadway pedindo dinheiro para comprar uma passagem para o céu. Foi internado no Eduardo Ribeiro onde recebeu medicamentos e liberação após alguns dias. Mas ninguém estava disposto a fazer o necessário para que Charles iniciasse um tratamento, e a bem da verdade, os irmãos sentiam-se era em paz quando Charles passava dias na rua. Porém, voltava fedido e seminu. Cheio de piolhos e uma camada dura de fuligem sobre a pele. Ninguém se importava muito, era deixado ao relento, dormindo no chão de madeira em frente à casa. Por fim, Charles atendeu definitivamente ao chamado e partiu para viver na rua com os “outros”. Mas, como temia voltar para aquele hospital torturador ou ser esquecido para sempre pelos pais, decidiu junto de seus amigos, que ficariam pelas redondezas do bairro para esperá-los perto de casa.
Desde então, Charles vagueia pelas ruas do Alvorada, descalço e com seu shortinho pega rapaz preto. Prefere ficar na cinco, em frente a barbearia onde toda manhã ganha um pão com café que para ele tem gosto de domingo com dim dim, mas às vezes fica na J, onde o movimento é intenso e a chance de encontrar os pais indo para a feira certamente é maior.
Quem sempre está pela J é uma mulher com seus 50 anos, talvez mais, que caminha elegantemente, trajando seu nada, entre os carros da principal do Alvorada 2. Às vezes repousa sobre o chão cru em frente à Santo Remédio que fica de esquina com a nove. Totalmente vulnerável. Tanto quanto aquela do centro, que naquele dia caminhava nua e menstruada pela Epaminondas. Já Doidinha, que deve ter 20 anos, não mais, vive perambulando pelas ruas do Nova Esperança, vestida de saia rodada e blusa colorida, esbanjando seu ar angelical e sorriso de menina. Feliz em seus sonhos infantis, indiferente com qualquer um que cruze seu caminho. Diferente daquela jovem senhora que fica parada e... calada. Acanhada. Sempre séria e sentada em frente à vila de kitnets da rua X, não sai de lá nem com balde de água fria.
Todos foragidos a tempos da condição de cidadãos, perdidos em seus delírios pessoais, cada qual em sua viagem interior. Moradores das ruas por motivos de loucura. Abandonados pela família. Renegados pelo Sistema. Não há ninguém por elas. Não há ninguém por Charles.
*Andressa Giacomin é professora da rede pública de Manaus, doutoranda do INPA e escritora
Foto de capa: frame de "Holocausto Brasileiro" (2016)
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