sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Charles

 


O pai veio do Nordeste, a mãe do interior, rio Juruá. O menino nasceu dentre outros tantos do ventre daquela mulher parideira. Naquela do época, o Alvorada era um bairro recém loteado com chão batido de terra e terrenos frutíferos que atraíam a criançada que se pendurava entre os galhos para roubar um abacate aqui ou umas goiabas acolá. Um estreito igarapé corria atrás do terreno da família de Charles onde logo a invasão de palafitas se instalou e um lixão se formou.

O lixo é a herança que a humanidade deixou para a Terra, zilhões de toneladas de restos de nada produzidos diariamente, e em Manaus não seria diferente. A porcariada toda se acumulava à céu aberto atraindo urubus famintos e crianças ávidas para encontrar algo interessante. Uma lata de sardinha afiada virava uma carreta, um arame enferrujado servia de corda, um vidro de xarope vencido era disputado entre os menores sedentos por açúcar.

E Charles vivia feliz entre os seus. Passava horas subindo e descendo as ladeiras do bairro com a bike velha do vizinho e frequentemente chegava todo quebrado de suas excursões. Um dia a queda da magrela foi feia e apareceu com o rosto esfolado e quase desfigurado, mas a mãe tratou com babosa durante dias o que resultou numa bela cicatrização. “Um santo remédio”, dizia. Às vezes gazetava aula para ir atrás dos mais velhos fumar um cigarro e dar um trago num corote, deixando a mãe emputecida ao chegar em casa grogue e fedido. Ela nunca contava essas presepadas de Charles para o marido com medo das reações violentas que certamente teria, muito embora o homem o amasse, isso era certo. Nos domingos de manhã, Charles era o escolhido para acompanhar o pai até a feira da avenida J ou a barbearia da rua cinco. Sempre ganhava um dim dim ou um pirulito de regalo enquanto esperava o pai aparar os cabelos e o bigode. O menino adorava ter o privilégio de passar essas horas exclusivas e raras ao lado do pai, se sentia seguro e vibrante.

Apesar de aparentemente comum, Charles era mais sensível às emoções do que os demais além de ter familiaridade com visagens. Não falava muito sobre o assunto em casa pois sabia que a mãe, muito religiosa, não gostava dessa prosa. Mas os “outros” visitavam o menino frequentemente, desde muito criança, fato que o deixava confuso muitas vezes pois não sabia se estava interagindo com alguém de carne e osso ou não. Para ele essa fronteira era tênue, saca? Na verdade, sequer existia. O pai sempre notava o menino falando “sozinho” ou dividindo seu dim dim com “ninguém” quando estavam na barbearia, mas nunca tocava no assunto. “Coisa de criança”, pensava.

Fato é que no início da puberdade de Charles, uma profunda tristeza abateu permanentemente a família. A morte chegou cedo demais, levando o pai, sem negociatas, aos 39 anos de idade. O homem era trabalhador e comprometido com o sustento da família. Foi ataque do coração. Na verdade, adoeceu de exaustão, no ofício de erguer paredes e tetos daquela cidade em expansão, 12 horas diárias sem folga do patrão. A mãe padeceu pouco tempo depois, de profunda tristeza e solidão.

Após a morte dos pais, Charles foi negligenciado pela família, pois as visitas dos “outros” tornaram-se mais frequentes e ele passou a dedicar atenção especial a seus companheiros, eram engraçados e faziam ele rir e se esquecer das brigas, da solidão e da morte. Alguns eram sujos e maltrapilhos, mas ele gostava de todos, afinal eram seus amigos. “Vem com a gente Charles, lá fora é mais divertido!” ouvia frequentemente, e esse chamado o atraía mais e mais.

O primeiro surto ocorreu na adolescência. Amanheceu apavorado pedindo aos berros para o pai voltar imediatamente para casa se não ele mesmo iria buscá-lo. E foi. Passou dias na rua até um irmão localizá-lo em frente ao Roadway pedindo dinheiro para comprar uma passagem para o céu. Foi internado no Eduardo Ribeiro onde recebeu medicamentos e liberação após alguns dias. Mas ninguém estava disposto a fazer o necessário para que Charles iniciasse um tratamento, e a bem da verdade, os irmãos sentiam-se era em paz quando Charles passava dias na rua. Porém, voltava fedido e seminu. Cheio de piolhos e uma camada dura de fuligem sobre a pele. Ninguém se importava muito, era deixado ao relento, dormindo no chão de madeira em frente à casa. Por fim, Charles atendeu definitivamente ao chamado e partiu para viver na rua com os “outros”. Mas, como temia voltar para aquele hospital torturador ou ser esquecido para sempre pelos pais, decidiu junto de seus amigos, que ficariam pelas redondezas do bairro para esperá-los perto de casa.

Desde então, Charles vagueia pelas ruas do Alvorada, descalço e com seu shortinho pega rapaz preto. Prefere ficar na cinco, em frente a barbearia onde toda manhã ganha um pão com café que para ele tem gosto de domingo com dim dim, mas às vezes fica na J, onde o movimento é intenso e a chance de encontrar os pais indo para a feira certamente é maior.

Quem sempre está pela J é uma mulher com seus 50 anos, talvez mais, que caminha elegantemente, trajando seu nada, entre os carros da principal do Alvorada 2. Às vezes repousa sobre o chão cru em frente à Santo Remédio que fica de esquina com a nove. Totalmente vulnerável. Tanto quanto aquela do centro, que naquele dia caminhava nua e menstruada pela Epaminondas. Já Doidinha, que deve ter 20 anos, não mais, vive perambulando pelas ruas do Nova Esperança, vestida de saia rodada e blusa colorida, esbanjando seu ar angelical e sorriso de menina. Feliz em seus sonhos infantis, indiferente com qualquer um que cruze seu caminho. Diferente daquela jovem senhora que fica parada e... calada. Acanhada. Sempre séria e sentada em frente à vila de kitnets da rua X, não sai de lá nem com balde de água fria.

Todos foragidos a tempos da condição de cidadãos, perdidos em seus delírios pessoais, cada qual em sua viagem interior. Moradores das ruas por motivos de loucura. Abandonados pela família. Renegados pelo Sistema. Não há ninguém por elas. Não há ninguém por Charles.


*Andressa Giacomin é professora da rede pública de Manaus, doutoranda do INPA e escritora

Foto de capa: frame de "Holocausto Brasileiro" (2016)


APOIE O BEIRAL 



quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

CONTO DA SEMANA - Tanatopraxia

 


Depois de mais uma semana de excessos, Carlinhos decidiu que ia dar um rumo em sua vida. Organizou a casa. Naquela semana serviu dignamente ao trabalho como nunca antes havia feito, e buscou na memória todas as pendências existentes com outras pessoas: amores mal resolvidos, família, amigos, ex-amigos, tudo e todos que em algum momento os acasos da vida haviam feito mágoas e rancor.

Listou cuidadosamente em ordem de importância os nomes que lhe vieram à mente e escreveu-lhes um a um longas mensagens de texto pedindo desculpas. Tentava explicar seus motivos, ou a falta deles, para justificar os desentendimentos causados até ali.

De alguns ex-amigos recebeu o afago do perdão, de outros nem resposta teve. Não ser respondido também é uma resposta, pensou sorrindo e levantando levemente as sobrancelhas em um gesto de auto perdão. Dos ex-amores foi chamado de cínico, e de fato talvez o fosse. Mas quem não é, não é mesmo?! 

Sentiu-se leve. Agora era a vez da família. Visitou a mãe que há tempos de sua vida a afastara por diversos motivos que não cabem descrever. Família né? cada uma com suas merdas. Ninguém sai ileso delas. Lágrimas e longos abraços, havia retomado o afeto de uma das únicas pessoas que o respeitava. Resolvido! 

Agora Carlinhos era um homem sem pendências e poderia recomeçar. Voltou pra casa e abriu o guarda roupas, escolheu cuidadosamente cada peça. Queria se sentir bem e estar apresentável. Sempre foi uma pessoa vaidosa, apesar dos altos e baixos da vida. Ouviu em algum lugar que as roupas que uma pessoa veste passam uma mensagem, levava isso a sério. Queria ser levado a sério, tentou ser levado a sério a vida toda... 

Separou a calça, uma camisa recém comprada para a ocasião, o sapato e um cinto de mesma cor, por último separou seus acessórios preferidos: cordões e pulseiras de prata, que quando os usava se sentia-se poderoso, em sua mente, eles lhe davam um ar mais sério e um certo charme misterioso. Tudo pronto!

Em seguida, laceou o pescoço com o punho da rede e se lançou do alto da cadeira, como quem mergulha em um rio de águas mornas em busca de alívio numa tarde de verão. Um som seco surdo soou de seu pescoço. Era o fim.  Aliviado e em paz, enforca-se Carlinhos.

*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita 




Contos e Crônicas Antonellianas - A travequinha vendedora de panfletos


Vivo da minha escrita em Manaus. Ela me sustenta e eu a sustento. Foi este o trato. Vou de mesa em mesa nos bares vendendo meus escritos. Também me aventuro em portas de teatros e outros estabelecimentos afins. Engulo cada sapo. Não pensem os senhores que é fácil ser escritor em Manaus. 

Aqui ainda sou vista como a travequinha vendedora de panfletos. Sou capaz de ouvir de longe alguém se queixar: “Lá vem aquela travequinha com seus panfletinhos.” 

Até que não me abalo muito. Tolstoi começou sua carreira de escritor escrevendo panfletos. Os panfletos de Tolstoi são a parte menos conhecida de seu trabalho, e o ataque à Shakespeare a quem ele desfere não é um documento literário fácil de se obter. 

Bem, voltemos a mim que não sou Tolstoi. Sendo ou não uma travequinha vendedora de panfletos, toco minha vida de escritora. Se as pessoas entendessem que o que faço é literatura. Bem, pelo menos acredito que seja. Mas, sabe, as vezes sou tentada a mudar de vida. Bate um desânimo foda. Não faz muito tempo, conheci um simpático casal bebendo num desses bares em torno da Praça São Sebastião. Ofereci, é claro, meus livretos. Valho-me sempre de uma boa retórica para impressionar. O sujeito fitou-me admirado e disse:

“Nossa, você fala muito bem. Tens uma oratória perfeita. Mas hoje não posso levar. No entanto, faço-lhe uma proposta. Venha trabalhar comigo vendendo pneus. Tenho uma loja de pneus na Praça 14 de janeiro e estou precisando de vendedoras como você. Pago bem meus funcionários.” Deu-me seu cartão. Guardei no bolso. 

Confesso que titubeei. Ocorre que não me vejo fazendo outra coisa senão escrevendo. Ora, veja, vendedora de pneus. Da outra feita, esbarrei com um velho amigo do bairro de Educandos que tinha se dado bem no ramo de bombonieres e agora bebia sua cerveja como um lorde no bar do Lusitano. Ofereci meus livretos:

“Antonelli, ainda está com esta mania de vender panfletos?”

“Não são panfletos, são livretos.”

“Dá no mesmo. Senta aí, pago uma cerveja.” Sentei. Pelas tantas, ele me disse:

“Estou precisando de vendedoras na minha bomboniere, e você é boa nisso. Tem uma lábia perfeita. Quer trabalhar para mim?”

“Vendendo bombons?"

“Bonbons e docinhos também, estou entrando no ramo de doces.” Eu não disse nada. Pedi licença dele e fui às outras mesas. Era uma noite difícil para as vendas. E havia as cobranças batendo à tua porta, a ração dos gatos e eu não havia vendido nada até ali. 

Olhei para a mesa deste meu amigo. Ele permanecia lá, sentado, dono de si, bebendo elegantemente sua cerveja. Todos em volta dele bebiam tranquilos e felizes suas cervejas. Todos em Manaus são felizes bebendo suas cervejas. Confesso que por um triz, quase reconsidero a sua proposta. Vendedora de bombons, só me faltava essa. Quase vacilo.

Manaus, 24 e abril de 2024

*Márcia Antonelli é transcritora 




terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Dalton Trevisan. Obituário

Dalton Trevisan e Anthon Tchecov foram os escritores que me encorajaram a mergulhar no universo dos microcontos. Mas rendo hoje aqui minhas homenagens à Dalton Trevisan, conhecido como O Vampiro de Curitiba e que nos deixou.  Aliás, Dalton tem uma obra de contos com este título: “O Vampiro de Curitiba que já recomendo.

A obra de Dalton Trevisan é impecável: brutalidade e miséria. Crueza da vida e do mundo. Eis a tônica inconfundível deste que é considerado merecidamente um dos melhores contistas do Brasil. Mestre da escrita minimal-animal. Com uma narrativa direta, enxuta, cheia de flashes do cotidiano, Dalton nos cativa e nos apaixona. Pois que  apropria-se de uma linguagem coloquial chegando a beirar o chulo mas nunca beirando, porque ainda sim, sua escrita é fina, elegante, fantástica. Foi um mestre, sem dúvida. Singular. Dono de uma dicção plena e única sem arredar um milímetro que seja de suas convicções literárias.  Portanto , não é fácil classificá-lo ou estuda-lo. Basta lê-lo. Viajar nas suas histórias e em suas crendices curitibanas  que nos revelam com lirismo, precisão estilística e concisa, o humanamente humano  dos espectros da crueza da vida e do mundo que nos cercam.


“A fumaça da chuva sobe pelas chaminés das casas e se espalha sobre a cidade. Um fio de silêncio cai de gota a gota da chuva. As gatas dengosas se viram de costas para dormir. Chuva, chuvinha, um lado da palmeira nunca se molha.

O Vampiro de Curitiba recolhe então suas asas na noite que se estende fria e sem respostas...”

Foto rara de Dalton Trevisan que não gostava de aparições


*Márcia Antonelli é transcritora 


Manaus, 10.12.2024




Charles

  O pai veio do Nordeste, a mãe do interior, rio Juruá. O menino nasceu dentre outros tantos do ventre daquela mulher parideira. Naquela do ...