“...e os espíritos imundos saíram do homem e entraram nos porcos. A manada de cerca de dois mil porcos atirou-se precipício abaixo, em direção ao mar, e nele se afogou.”
Marcos 5:13
Num final de tarde, ao chegar do trabalho, foi surpreendida por sua tia, que morava em casa vizinha a sua, que lhe perguntou como estava sua filha. Disse que estava bem no geral, mas que ultimamente havia passado por uns momentos ruins, a criança tinha 13 anos na época e sua adolescência estava sendo difícil, algumas coisas não estavam em ordem, estava muito introspectiva, meio chorosa.
Não sabia explicar bem o que sentia. Mas que estava atenta, tomando as providências necessárias pra organizar os sentimentos da menina. Por que a pergunta, tia? Falou curiosa, uma vez que não havia compartilhado com ninguém a situação até aquele momento, para preservar a filha.
A tia a olhou friamente com um olhar de preocupação e falou que havia percebido algo estranho com a menina ao passar por ela no dia anterior. Comportamento? Perguntou a mãe preocupada. Não necessariamente, respondeu com uma certa tensão.
É que a tia era médium, e desde de criança via coisas do mundo espiritual. Tornara-se espirita pela necessidade de lidar com tal fato, que segundo seu próprio relato, é um tanto assustador no início, e que isso é motivos de muitos conflitos e problemas ao longo da vida daqueles que não aceitam a missão.
Eu sei leitor, muitos não acreditam nessas coisas, mas afirmo-lhes que a história é verdadeira. A verdade é que o mundo que vemos não é o mundo real, é apenas um fragmento mínimo alcançando pelo nosso cérebro medíocre diante de nossas limitações. E sempre que nos confrontamos com nossa insignificância é chato e desanimador mesmo, eu entendo você.
No fundo, nas entranhas de nossa vaidade, queremos ser algo relevante. Sermos tudo que existe de melhor. Mas aceite, somos apenas seres sem propósito vagando nesse mundo sem sentido algum. É duro, é triste, mas é o que temos. Não há como ignorar. Mas sigamos...
A tia continuou a explicar: É que percebi espíritos rodeando ela. E não são espíritos do bem minha filha. Eles tinham unhas grandes e pretas e no dia que os percebi ela também usava unhas da mesma cor. O que estava mais próximo a ela era uma mulher, uma senhora já. Ela tem se machucado ultimamente? Perguntou.
A mãe respondeu que sim com uma expressão de susto. Disse que a pouco mais de uma semana havia ocorrido um episódio de autoflagelo, tentativa de cortes no pulso com uma gillette.
Eu sabia, são espíritos suicidas minha filha, eles estão a circulando e a incentivando a fazer essas coisas. Precisamos tomar providências, porque não é apenas um, são vários, disse com certa preocupação. E o que são eles afinal? Perguntou a mãe com um certo temor.
São seres desencarnados, espíritos obsessores, são almas desencarnadas que foram dominadas por sentimentos como o ódio, a tristeza, e infelicidade e hoje vagam no mundo em busca de contato com pessoas mais sensíveis ou que estão fragilizadas de forma espiritual. Pessoas mais sensitivas são o alvo número um deste tipo de ataque espiritual, pois são espíritos que querem ser notados, por isso perturbam ou seguem essas pessoas quando vêem algum tipo de abertura.
Organizaram uma sessão onde todos da família participaram, a leitura do livro dos espíritos foi feita e nesse momento a menina sentiu como se algo tivesse limpado seu corpo, como se estivesse suja de algo e a partir daquele momento estivesse limpa novamente, sentiu um frescor de alívio em sua pele ao ser tocada pelo vento que circulava no ambiente, seus ombros relaxaram como se um peso tivesse sido tirado deles e o semblante tenso foi aos poucos se desfazendo em seu rosto.
De mãos dadas em círculo a tia, de olhos fechados e com uma leve expressão de cansaço no rosto, comunica: Nossos irmãos do mundo espiritual também estão aqui presentes conosco nessa noite. E estão nos agradecendo pelo momento de reflexão.
Após isso, soltaram as mãos e se cumprimentaram com abraço em um gesto de confraternização.
Neste mesmo momento, a duas quadras dali, um cachorro entra em desespero e começa a grunir alto como se sentisse uma enorme dor, e em um ato de angústia sai em disparada a correr pela rua desorientado, em várias direções, como se tentasse se livrar se algo.
Os transeuntes observam assustados a cena, que àquela altura já havia tomado para si a atenção de todos. Pelo sentido oposto ao animal, um carro se desloca em velocidade moderada. E em um ato bizarro, o animal corre em direção ao veículo em alta velocidade e se lança no para-choque do carro, explodindo e espalhando suas vísceras por toda a rua, que imediatamente exala um cheiro fétido de decomposição.
O motorista desce e olha em desespero a cena. Seu carro totalmente coberto de sangue. O que restou da cabeça do animal rola de cima do veículo e cai em seus pés. Sem poder conter a ânsia, vomita ali mesmo. Outros transeuntes também começam a vomitar. Um vento morno sopra levemente espalhando o cheiro rançoso e amonical pelas ruas vizinhas. No céu, uma lua doce brilhava leve e prateada.
* Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita

Foi com grande surpresa que me deparei com a produção literária do Francisco. Já o conhecia há algum tempo e desconhecia seu lado escritor, muito bom seus contos.
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