Manaus, como qualquer outra cidade, é uma cidade em pedaços, fragmentada no espaço pelo tempo. A cidade que possuímos hoje é fruto da ação dos sujeitos que, no passado, fizeram dela um espaço de vida. Enquanto obra e produto, Manaus é resultado tanto do nosso passado quanto do nosso presente. Ao caminharmos pela Manaus de hoje, percebemos a presença do ontem. Mas esse ontem não é apenas a Manaus dos seus tempos históricos; é também a Manaus que continuamos a produzir dia após dia.
Na Manaus de hoje, assim como na de ontem, muitos são os problemas e poucas as soluções que vivemos. Estamos rodeados de incertezas — e até essas incertezas são incertas. Entre aventureiros e múmias, seus governantes e administradores jogam com a sorte para decidir quem irá banhar-se dos privilégios dos cargos públicos. Estamos à mercê da cidade que esses usurpadores estão a produzir. Sem muitas alternativas políticas para os subalternos e sujeitados, a tragédia — a cidade em chamas — dita os passos que seguiremos no amanhã.
Produzimos uma cidade indiferente ao caos da saúde pública, conformada com a máquina da morte construída pela corrupção do Estado amazonense. Aceitamos uma cidade amedrontada pelo assalto das facções criminosas, que fazem desse espaço um campo de disputas — muitas vezes em conluio com as próprias autoridades. Iludimo-nos com uma educação chamada política, mas que pouco educa, pois está refém dos crimes cometidos tanto pelo Estado quanto por aqueles que dela não fazem caso. Caminhamos por uma cidade deformada, sem políticas públicas eficazes para a melhoria do saneamento básico e das suas estruturas urbanas, as quais deveriam assegurar o direito de viver dignamente na cidade. Somos a cidade das cinzas, que agoniza em suas contradições, assim como a floresta em suas queimadas.
No ontem e no hoje, Manaus se reproduz sob as mesmas problemáticas. Mascarar tais problemas com as bondades que a cidade oferece chega a ser desonesto, pois vivemos cotidianamente sob as mazelas que nós mesmos estamos a produzir e reproduzir. Somos reféns dos nossos fantasmas, assim como dos fantasmas dos outros.
Caminho pela cidade aos passos da minha própria história. A cidade, mais do que uma expressão concreta, é o conflito das existências cotidianas. Manaus, como qualquer outra cidade, um lugar de muitos, é rica em suas contradições — e não poderia ser diferente: cada rua, cada esquina, carrega consigo o peso e a leveza das nossas experiências e vivências. O urbano é onde somos e buscamos ser, nosso melhor e nosso pior.
A cidade é uma obra coletiva, produzida pelo tempo, pelas mãos e pelos sonhos daqueles que nela vivem. Seus espaços são produtos de tempos sobrepostos, vestígios dos processos que moldam, cotidianamente, o modo de viver. Por isso, a cidade é mais que um palco da sociedade; é a concretização de escolhas e ausências, de avanços e retrocessos. Ela reflete tanto o passado que nos construiu quanto o futuro que insistimos em adiar.
Manaus é esse espaço de encontros e desencontros. Aqui, a modernidade se impõe sobre a floresta, e o capital avança sobre memórias, apagando retratos do que fomos. Ainda assim, em cada praça mal cuidada e em cada viaduto lotado guardam-se fragmentos de um viver coletivo, onde a cidade é simultaneamente sonho e realidade, promessa e frustração. Caminhar por suas ruas é buscar sentido, mesmo que esse sentido seja sempre um empréstimo do passado e, assim como o nosso futuro, esteja condenado ao esquecimento no tempo e nas práticas que produzem a cidade em fragmentos.
Aos 355 anos de Manaus, resta-nos apenas parabenizar e seguir incertos sobre as incertezas dos caminhos que estamos a trilhar.
*Fernando Monteiro é geógrafo e músico na banda Burying Existence
Foto: Antonio Raulino

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