A senhora se ligue. Vou lhe contar sobre Steffanny. Steffanny de Mônaco. Era como gostava de ser chamada: Steffanny de Mônaco. Seu nome de guerra. Só que com mais glamour. Muito mais elegante que a de Mônaco. Elegante mesmo. Sabia se colocar nas pistas. 1.70 de altura. Trabalhada nos saltos e com um lipstick terroso ou rosa choque nos lábios, tudo muito discreto e elegante igual as roupas e calçados que usava combinando, ficava um escândalo. Glamour-Glamour. Destacava-se entre as outras travestis onde quer que chegasse ou estivesse. Seus olhos eram castanhos claros, cabelos longos, naturais, sempre fina e elegante em seu tailleur de tons pastéis, salmão, ou então bege mesmo, da cor da pele. Não abria mão nunca de sua bolsinha à tiracolo pesadinha, cheinha de pedras, estilete ou então um canivete. Suas armas de guerra. Mas, uma lady. Estou lhe dizendo. Até quando se colocava na pista pelas esquinas das ruas, altiva à cata de clientes, era como uma flor mais bela esperando as abelhas pousarem, também as borboletas, as mariposas, os inúmeros insetos da noite que, atraídos por ela, vinham beber de seu néctar. Ela sabia de seu magnetismo. Sabia sim. Uma lady, minha senhora, uma lady. Até o jeito de falar, a postura ereta, o andar. Eu olhava para Steffanny e via uma aeromoça, uma secretária executiva, uma senhora dona de empresa, algo do tipo, mas nunca, nunca, uma travesti qualquer. Razô-Razô. Um vez ela disse: “Sou Steffanny só a noite, durante o dia, sou Diego, mas não gosto de quem eu sou pela manhã.” É que Steffanny tinha uma vida chata pela manhã. Chata mesmo. Cuidava do pai cadeirante que condenava seu travestismo. A mãe fazia vista grossa. Pior mesmo era quando o irmão mais velho morava com eles. Chamava-se Antônio e ele batia muito em Steffanny. A espancava que era pra ela parar de desmunhecar tanto e andar sem rebolar pela casa: “Viadinho aqui não se cria não, porra!” Dizia ele. Tinha pavor desse irmão quando ele chegava bêbado em casa e descarregava sua raiva nela. Ela apanhava em casa e na rua também. Tinha que aprender a ser um machinho. Afinal, tinha um pinto entre as pernas e não uma racha, caralho. Apanhou desse irmão até os quinze. Depois, para o seu alívio, Antônio deixou a casa e não deu mais as caras. Caiu no mundo e no álcool. Mas ficaram as marcas. Sempre ficam as marcas: o acúmulo dos murros na boca, no queixo, os tapões, pescoções, safanões. E a imagem do anel de metal que ele usava no dedo médio com o desenho de uma cruz de braços iguais, dobrados em ângulo reto, parecendo uma roda ou um quatro em egípcio. A insígnia da suástica. Mas como ela ia adivinhar? E aquilo machucava muito a cada soco. Fazia estragos, minha senhora, fazia estragos. Os olhos dele que eram claros e lindos como os dela, mas perversos quando ele a encarava enquanto a espancava, ela também não esqueceria nunca mais. Como é que esquece, não é? A vida dá voltas. Pegue a visão, minha senhora, a vida dá voltas. É o que chamamos de, “o retorno do anzol.” Mas isso é bem lá pra frente. Se ligue.
*por Márcia Antonelli, transcritora

Acompanho a produção literária desta prolífica escritora há muitos anos, e tenho observado todo o amor e dedicação de Antonelli à literatura. É muito bom ver uma nova geração de escritores surgir nesta cidade na qual a artes têem pouquíssimo apoio dos órgãos culturais.
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