Mas nem tudo era ruim na família de Steffanny. Havia um tio seu que era bem legal com ela. Como trabalhava na reforma de estofados e colchonetes, era ele quem dava os colchões velhos a ela para fazer os moldes de seus próprios enchimentos que serviam aos quadris, peitos, coxas e também a bunda. Steffanny preparava ela mesma os enchimentos. Tinha talento pra aquilo. Com isso, ficava mais afrontosa. Sedutora. Peitava quem quer que fosse peitar. Quando provocada, partia pra cima mesmo. Tinha seus desafetos. Quem não tem? Desaforada que era, Steffanny. “Sou amiga de todas, só não cague no maiô, mona, ou venha me chochar.” Ela dizia. Chequeira. Steffanny era chequeira. Checava na maior, se o cliente pedisse, dá licença! Descia dos saltos mesmo. Cheque gordo, sem fundão. Não importava o ocó. “Não tô nem vendo, mona. Bancou a Neide, checo mesmo.” Affeee. Trezentinho todo dia era sua meta, tá meu bem! Passada, olha. Lembro dos dentes entremeados de Steffanny, o que não embaçava sua beleza de jeito nenhum. Ela tinha um rosto fino, muito bonito, o nariz afiladinho porque passava cola mil na sua ponta pra ele parecer empinadinho tornando a voz até meio fanhosa quando falava, daí, depois da jornada, ela retirava a cola com água morna e tudo voltava ao normal. Steffanny era cheia da trucagem. Glamour-Glamour. Voltava de suas noitadas no primeiro executivo. Não pegava ônibus velho não. Pelo menos nunca a vi pegar outro ônibus que não fosse o Executivo. Desses bem geladinho. Viajava sentadinha atrás. Relaxada. Oclão na cara. Pernas cruzadas. Razô-razô. A porra foi ela ter aplicado nos seios a merda daquele silicone industrial para fuselagem de avião. Quase a ferra de vez. A droga se espalhou pelo corpo todo. Subiu e desceu. Os músculos da face dela se petrificaram. Depois craquelou pra baixo inchando suas pernas e estourando suas veias. Perdeu o close. Mas não a pose. Embora tenha ficado um tempo sem andar. Sem mexer a boca direito. Misericórdia! Só Jesus na causa, minha senhora, só Jesus na causa. Passada com Steffanny, olha! Mas não é que a veada sobreviveu? Logo estava de volta nas pistas. Trabalhada nos saltos e belíssima com um colar de pérolas falsas comprada em um brechó maneiro na Feira do Produtor. Razô-Razô. Mancava um pouco, é bem verdade. Mas até para mancar, é preciso ter classe. E Steffanny tinha classe. A vida que se manque pra lá. Steffanny tinha glamour. E planos também. Planos grandes, tu jura, mana? Juro. Ela não pertencia mais a cidade. Pertencia não. Tudo ficou pequeno pra ela. Gorduroso. Uó! Certa noite, na antiga Boate A2, reencontrou uma velha amiga sua de nome Brendha que chegara de São Paulo, mas que morava em Amsterdã. Ela meteu corda: “Se liga, mulher, as bixa tão indo às pencas pra Europa. Amsterdã é o bicho. Lá tu se cria. O babado é forte. Aqui já deu, não deu? A senhora quer morrer aqui, feito bixa burra? Se manque, veada!”
*por Márcia Antonelli, transcritora

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