quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Contos e Crônicas Antonellianas - Steffanny (parte 3)


Começou a juntar dinheiro, esperta que era. Já estava em forma outra vez. Carros paravam pra ela. Carrinhos e carrões. Não fazia distinção. Era só pôr o pé na pista e já parava um carro. As pernas longas e o tok tok dos saltos na direção da clientela: “Quanto, bebê?” “Cento e cinquenta, incluindo o boquete.” Sempre classuda nas suas roupas comportadas. Nada de extravagância. Não era bixa baixa não. A Odara bem acuendada. Glamour-glamour. Voltar negativa pra casa? jamé, meu bem! Agora com a ideia da viagem pra Europa, morreu de colar. Acuézão antecipado. Mais cinquenta se rolar cunete, então são trezentos e cinquenta. Nesse nível, tá mana? Na tabelinha. Não lhe faltava um unicozinho cliente. Estou lhe dizendo. Nhaí, mapô, se ligue! Steffanny era do dendê, do saroyê, do bajubá. Oxi, oxi, pensa que é assim bagunçado? Né, não, nêga. Pegue a visão, tá meu bem!! Foi ela quem me ensinou a ter postura. Foi no quarto de sua casa, uma tarde. Um quarto bem arrumadinho com a parede repleta de posters de celebridades. Inclusive a de sua preferida: a princesa de Mônaco, a qual era super fã. Aí ela me disse, jogando o cabelo pro lado: “Ajeita esta coluna, mulher! Ande sempre ereta olhando pra frente, nunca pra baixo. Por que não largas desse emprego besta e cai no mundo, veada?” E ela estava certa. Eu tinha um emprego besta no Distrito Industrial. Apertava parafusos na linha de montagem da Moto Honda. Pegava às seis, largava as quinze. Não tinha uma alma livre como a dela. A coragem de me assumir. De cair no mundo. Chutar o balde. Tinha não, minha senhora, tinha, não. Por isso eu admirava Steffanny. Me espelhava nela. A última vez que a vi, eram cinco e pouco da manhã. Aguardava minha condução na parada. Vinha ela bêbada, cheirada, naquele modelo, mas nunca trocando os pés sobre os finos saltos. Glamour-Glamour. A vi subindo a rua na companhia de um morcegão malencaradíssimo. Nunca voltava pra casa sozinha. Arrastava o que restava pelo caminho. Olhou pra mim e disse: “Vou ali fazer esse bofe, se eu não voltar, já sabe.” Não era a primeira vez. Sempre levava os morcegões pros terrenos baldios pra fumarem a última pedra. E trepar. Depois de cheirada e craqueada, Steffanny trepava com os morcegões nos terrenos baldios ou em cima das tampas de esgotos das galerias. Passada, mana, passada. 

*por Márcia Antonelli é transcritora 





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