Dias depois, soube de sua viagem para São Paulo. Brendha a esperava por lá. Morava em um apê bem ajeitadinho em Diadema. Bairro agitadíssimo. Bares, boates e pubs saindo pelo ladrão. Babado forte. Mas ela estava só de passagem. Não custava lembrar. E Brendha a lembrava sempre: “Não vai te viciar, veada. Nosso destino é Amsterdã, bixa.” Mas a noite era viciante mesmo. Steffanny foi fazendo dinheiro. Se divertindo. Só era ter cuidado com os carecas. Uns lixos. Não gostavam de negros, nordestinos e travestis. Tocavam terror em Diadema. Brendha a advertiu. Steffanny não deu muita bola não. Ainda guardava na bolsinha suas pedrinhas, estilete e o canivete. Seu arsenalzinho de guerra que ela levava consigo aonde quer que fosse. Um fim de noite, saindo de uma das boates, ela parou em um botecozinho pra tomar a saideira com a amiga Brendha e comemorarem juntas a viagem pra Amsterdã, com bilhete já comprado pro dia seguinte. Estava feliz, cheia de expectativas. Radiante. Haviam se divertido à beça na Boate “Ângelus”, dançando as duas uma versão eletrônica de “I Will Survive”, da Glória Gaynor. Que noite! Dali pra manhã, partiu Amsterdã!! Uhuuu!! Mas foi nesse bendito botequim, que ela cruzou olhar com um sujeito moreno, cabelos raspados e que a encarava de uma mesa. Seus olhos eram pequenos e claros. Como os dela. Não podia ser sendo. Inacreditável. Ele insinuava-se de lá, erguendo timidamente seu copo de cerveja, olhando pros lados. Estava hipnotizada. Eram três daquela manhã. Brendha achou que já tinha dado. Precisavam acordar cedo para arrumarem as coisas. “Vai na frente mana, vou fazer mais um programinha.” Disse Steffanny, correspondendo ao olhar do outro. “Mas é tarde, Steffanny!” “Sei. Mas é que tenho umas coisinhas pendentes. Um dia te conto.” A outra concordou. Partiu na frente. Steffanny foi sentar à mesa com o tal carinha. Ele já estava groguinho. Mas rolava. Ora se rolava. Ela não dispensaria aquele bofe por nada nesse mundo. Esperou tanto. As pedras que são pedras não se encontram? Babado forte, mana, babado forte. Foram os dois para um motel mais próximo. Fez questão de pagar o quarto. Ele até espantou-se. Era um motel bem apanhadinho com uma cama redonda, tv, frigobar e até hidromassagem. Glamour-Glamour. O cliente se saiu logo bem apressadinho. Steffanny teve que contê-lo. “Calma, querido, deixo eu olhar bem pra você!” Ela o trouxe pra bem junto dela. Encostou o rosto dele em seu peito. Depois olhou nos olhos dele. Como esqueceria aqueles olhos. Imagens vinham à sua cabeça. Um soco após o outro. E também havia o anel que ele ainda usava no dedo médio: a tal cruz com braços iguais, dobrados em ângulo reto, parecendo uma roda ou um quatro egípcio. Mas que lhe machucou muito. Fez-lhe estragos no rosto e na alma. As lembranças vinham. O ódio lhe tomando conta. É, a vida dá voltas. Dá sim, senhora. “Você é linda pra caralho, gata!” Disse o tal sujeito tentando tocar a odara dela já duríssima. Ela afastou sua mão pro lado. Pediu calma. Disse que era ela quem estava no comando agora. Virou ele de costas e o empurrou violentamente sobre a cama. Tirou seus sapatos e a calça. O traseiro grosseiro e nu à amostra. “Que cê vai fazer, porra?” “Relaxa, bebê! Vais gostar. Sempre gostou e nunca me disse nada. Por isso me espancava, né, seu escroto?” “Que cê tá falando, porra!” Aí então ela empurrou. Meteu pra dentro. Assim, na tora. No seco. Sem creminho nem nada. Ele gemeu alto. Mas não se moveu. Ela empurrou de novo com mais força. Foi entrando tudo. Ele arregalou os olhos. A ficha pareceu ter caído afinal. Mas já era tarde. Ele foi sentindo aquilo entrar e sair do seu cu, rasgando tudo. “Vou te matar, seu viado!” Disse ele. Mas ela já tinha em mãos, o seu canivete. Encostou a arma fria no seu rosto: “Mata agora, desgraça, quero ver!” Não reagiu. Tinha os olhos abertos de pavor. Ela foi metendo mais e mais até onde não podia. A cada estocada era como um soco, um tapa, um pescoção, um safanão que vinha à tona na sua mente em flashes rápidos. Tudo ainda tão vivo e doloroso. Gozou rápido. Depois de gozar, fez um risco fundo em seu rosto em forma de “S” e saiu de dentro dele. Em pé, ainda apontava trêmula o canivete em sua direção enquanto ele sangrava muito, olhando pra ela petrificado. “Se vier, te mato, seu merda!” Ele encarava a irmã, sem ainda acreditar. Ela arrumou-se apressada. Deixou o motel, descendo as escadas apavorada. Porém, vingada. Olhou a rua ainda agitada. Antônio gritava atrás dela só de cuecas. Chamou a atenção de uns carecas que bebiam agora no buteco. Eles conheciam Antônio. Ele fazia parte da gang dos carecas. Steffanny correu deles. Steffanny não era de correr, mas dessa vez precisou correr. Correu muito. Mais do que podia correr com seus altos e elegantes saltos. Mas foi só quando perdeu o equilíbrio e desabou no asfalto é que eles a alcançaram. O irmão ficou vendo de longe. Nada fez para impedir. Nadinha, minha senhora, nadinha. E eram pra mais de cinco. A imobilizaram. A espancaram ali mesmo. Um deles, atingiu-lhe com um soco inglês esfacelando o nariz de Steffanny, também o queixo, o rosto todo. Como se não bastasse, com ela jogada ao chão, chutaram seu corpo pra valer. A largaram na pista agonizando. Ela ainda arrastou-se com vida pro meio fio, se não capaz de ser atropelada igual cachorro. “Saindo com veado agora, caralho?” Disse um deles pra Antônio que não disse nada. Pegaram o beco.
No corredor daquele hospital, ela viu as luzes de Amsterdã. Seus canais pitorescos, seus prédios, ruas, pubs, baladas, cervejarias, suas drogas liberadas. Tudo que poderia ter sido, e não foi. Steffanny sorriu com sua boca medonhamente desfigurada querendo dizer aos médicos que eles teriam um trabalhinho danado para recompor seu lindo rosto. Eles não acharam nada engraçado e entraram com ela na sala de cirurgia.
Semanas depois, eu apertava os parafusos na linha de montagem daquela fábrica quando soube de seu féretro transladado para Manaus...
Em relatório divulgado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, o Brasil continua sendo campeão de desrespeito e violência com pessoas trans. Pelo décimo quarto ano seguido, somos o país que mais mata pessoas destes gêneros no mundo todo.
Fonte: radioagência-nacional/direitos humanos.
Manaus, 30.10.2024
*Márcia Antonelli é transcritora


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