Acordou cedo naquela manhã e se encaminhou para a escola da filha, era dia de reunião dos pais. Avisou na empresa que chegaria mais tarde. Trabalhava como motorista em uma transportadora de pequenas encomendas. Acompanhava de perto a vida escolar da filha Martinha, que tinha 9 anos e estava na quarta série primaria na Escola Municipal Presidente Manuel Ferraz, no Campos Sales, bairro onde morava com a mãe, pai e a avó materna.
Foi recebido pela diretora da escola, que já aguardava sua presença, ela o levou para a sua sala e conversaram sobre como andavam as coisas desde a última reunião. Ele era uma pessoa amigável e já conhecida devido a sua presença na escola no acompanhamento das atividades de Martinha. Os pais são pouco participativos na vida escolar das crianças, esse papel é geralmente destinado as mães e avós, ou a alguma outra figura feminina da família. Então, os pouco pais que participavam ativamente das atividades da escola eram facilmente reconhecidos no meio dos demais.
Após a conversa, foi encaminhado para o auditório da escola onde receberia as informações gerais dos temas da reunião. Ouviu atentamente a cada informações, fazendo anotações das datas e eventos em seu celular. Apresentações, feiras, contribuições necessárias e etc. Ao fim, se encaminhou para a sala dos professores para cumprimentar uma a uma as professoras de Martinha. Perguntou como ela estava se saindo e se gostariam de falar com ele sobre alguma situação ou orientação a respeito da filha. Disse que Martinha havia faltado alguns dias devido a um pequeno incidente, mas que já estava tudo bem. E que já havia deixado o atestado médico na escola para justificar suas faltas. Era de fato muito preocupado com a filha e com seu desenvolvimento na escola.
As professoras, que já o conheciam, disseram que nada haviam para informa-lo, uma delas preferiu não falar, pediu para que a colega o informasse a mesma coisa. Não havia nada a dizer. Agradeceu a atenção das professoras e se colocou a disposição para qualquer situação. Qualquer coisa pode me ligar ou para a mãe dela. A diretora tem meu número, falou. Agradeceu mais uma vez, desejou bom dia a todos com ternura e seguiu para o seu trabalho. As professoras se olharam com certa preocupação e retornaram aos seus afazeres.
Ao chegar em casa a noite chamou a esposa e sorrindo disse “nem lembrou que dia era hoje, ne?” a esposa busca na mente uma informação que não encontra e retorna a pergunta. O que tem hoje?, foi a reunião da escola da Martinha. Sorriu. Mas não se preocupe, eu fui. Você tem estado cansada e muito atarefada, decidi não lhe acordar já que era seu dia de folga, mas eu resolvi, não foi nada de mais, apenas informativos dos eventos da escola nesse bimestre, depois lhe passo. E Martinha esta bem nas aulas.
A esposa já com um semblante de decepção e preocupação, depois de um certo momento de silencio fala: Meu bem, porque fez isso? Você sabe que Martinha não está mais na escola. O marido ignorou a informação e seguiu para o quarto de Martinha. A esposa seguiu para a cozinha com lágrimas nos olhos e com o coração em pedaços. A verdade é que martinha não sobreviveu ao acidente da van escolar, foi a única das cinco crianças que perdeu a vida devido a um trauma na cabeça após a colisão da van com um micro ônibus.
O pai se negou a aceitar a situação desde o primeiro momento, entrou em estado de negação e se trancou no quarto, não quis ir ao velório na igreja do bairro e também se recusou a ir no enterro, e desde então seguiu a vida como se nada tivesse acontecido. E se nega a falar sobre o assunto, ignorando tudo e todo que tentam. Os familiares não sabiam mais como o ajudar, se recusa a ir ao médico. Não entende o motivo da preocupação com ele. No quarto de Martinha, religiosamente todas as noites, ainda lê sua história de princesa preferida, para a cama vazia.
*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita


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