quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

CONTO DA SEMANA - Tanatopraxia

 


Depois de mais uma semana de excessos, Carlinhos decidiu que ia dar um rumo em sua vida. Organizou a casa. Naquela semana serviu dignamente ao trabalho como nunca antes havia feito, e buscou na memória todas as pendências existentes com outras pessoas: amores mal resolvidos, família, amigos, ex-amigos, tudo e todos que em algum momento os acasos da vida haviam feito mágoas e rancor.

Listou cuidadosamente em ordem de importância os nomes que lhe vieram à mente e escreveu-lhes um a um longas mensagens de texto pedindo desculpas. Tentava explicar seus motivos, ou a falta deles, para justificar os desentendimentos causados até ali.

De alguns ex-amigos recebeu o afago do perdão, de outros nem resposta teve. Não ser respondido também é uma resposta, pensou sorrindo e levantando levemente as sobrancelhas em um gesto de auto perdão. Dos ex-amores foi chamado de cínico, e de fato talvez o fosse. Mas quem não é, não é mesmo?! 

Sentiu-se leve. Agora era a vez da família. Visitou a mãe que há tempos de sua vida a afastara por diversos motivos que não cabem descrever. Família né? cada uma com suas merdas. Ninguém sai ileso delas. Lágrimas e longos abraços, havia retomado o afeto de uma das únicas pessoas que o respeitava. Resolvido! 

Agora Carlinhos era um homem sem pendências e poderia recomeçar. Voltou pra casa e abriu o guarda roupas, escolheu cuidadosamente cada peça. Queria se sentir bem e estar apresentável. Sempre foi uma pessoa vaidosa, apesar dos altos e baixos da vida. Ouviu em algum lugar que as roupas que uma pessoa veste passam uma mensagem, levava isso a sério. Queria ser levado a sério, tentou ser levado a sério a vida toda... 

Separou a calça, uma camisa recém comprada para a ocasião, o sapato e um cinto de mesma cor, por último separou seus acessórios preferidos: cordões e pulseiras de prata, que quando os usava se sentia-se poderoso, em sua mente, eles lhe davam um ar mais sério e um certo charme misterioso. Tudo pronto!

Em seguida, laceou o pescoço com o punho da rede e se lançou do alto da cadeira, como quem mergulha em um rio de águas mornas em busca de alívio numa tarde de verão. Um som seco surdo soou de seu pescoço. Era o fim.  Aliviado e em paz, enforca-se Carlinhos.

*Francisco Chagas é professor da rede pública, escritor e músico na banda Poesia Maldita 




Sem comentários:

Enviar um comentário

Charles

  O pai veio do Nordeste, a mãe do interior, rio Juruá. O menino nasceu dentre outros tantos do ventre daquela mulher parideira. Naquela do ...