Vivo da minha escrita em Manaus. Ela me sustenta e eu a sustento. Foi este o trato. Vou de mesa em mesa nos bares vendendo meus escritos. Também me aventuro em portas de teatros e outros estabelecimentos afins. Engulo cada sapo. Não pensem os senhores que é fácil ser escritor em Manaus.
Aqui ainda sou vista como a travequinha vendedora de panfletos. Sou capaz de ouvir de longe alguém se queixar: “Lá vem aquela travequinha com seus panfletinhos.”
Até que não me abalo muito. Tolstoi começou sua carreira de escritor escrevendo panfletos. Os panfletos de Tolstoi são a parte menos conhecida de seu trabalho, e o ataque à Shakespeare a quem ele desfere não é um documento literário fácil de se obter.
Bem, voltemos a mim que não sou Tolstoi. Sendo ou não uma travequinha vendedora de panfletos, toco minha vida de escritora. Se as pessoas entendessem que o que faço é literatura. Bem, pelo menos acredito que seja. Mas, sabe, as vezes sou tentada a mudar de vida. Bate um desânimo foda. Não faz muito tempo, conheci um simpático casal bebendo num desses bares em torno da Praça São Sebastião. Ofereci, é claro, meus livretos. Valho-me sempre de uma boa retórica para impressionar. O sujeito fitou-me admirado e disse:
“Nossa, você fala muito bem. Tens uma oratória perfeita. Mas hoje não posso levar. No entanto, faço-lhe uma proposta. Venha trabalhar comigo vendendo pneus. Tenho uma loja de pneus na Praça 14 de janeiro e estou precisando de vendedoras como você. Pago bem meus funcionários.” Deu-me seu cartão. Guardei no bolso.
Confesso que titubeei. Ocorre que não me vejo fazendo outra coisa senão escrevendo. Ora, veja, vendedora de pneus. Da outra feita, esbarrei com um velho amigo do bairro de Educandos que tinha se dado bem no ramo de bombonieres e agora bebia sua cerveja como um lorde no bar do Lusitano. Ofereci meus livretos:
“Antonelli, ainda está com esta mania de vender panfletos?”
“Não são panfletos, são livretos.”
“Dá no mesmo. Senta aí, pago uma cerveja.” Sentei. Pelas tantas, ele me disse:
“Estou precisando de vendedoras na minha bomboniere, e você é boa nisso. Tem uma lábia perfeita. Quer trabalhar para mim?”
“Vendendo bombons?"
“Bonbons e docinhos também, estou entrando no ramo de doces.” Eu não disse nada. Pedi licença dele e fui às outras mesas. Era uma noite difícil para as vendas. E havia as cobranças batendo à tua porta, a ração dos gatos e eu não havia vendido nada até ali.
Olhei para a mesa deste meu amigo. Ele permanecia lá, sentado, dono de si, bebendo elegantemente sua cerveja. Todos em volta dele bebiam tranquilos e felizes suas cervejas. Todos em Manaus são felizes bebendo suas cervejas. Confesso que por um triz, quase reconsidero a sua proposta. Vendedora de bombons, só me faltava essa. Quase vacilo.
Manaus, 24 e abril de 2024
*Márcia Antonelli é transcritora


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